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Corvette, Skyline e RX-7: como clássicos dos EUA chegam ao Brasil

Mazda RX-7 verde-escuro e Corvette C5 branco estacionados lado a lado na entrada de uma casa na região de Orlando, na Flórida

A casa fica num condomínio comum da região de Orlando, na Flórida: grama aparada, calçada limpa, garagem de duas portas. O que foge do padrão está na entrada. Encostados no paralelepípedo estão um Impala vermelho, um Nissan Skyline R32 GT-R cinza de rodas douradas, um Mazda RX-7 verde-escuro esperando o embarque e um Corvette C5 branco comprado na semana anterior. Na rua, em frente, um segundo Corvette C5, vermelho, que é o carro de todo dia do dono.

O jornalista Tiago Kfouri, o TK do canal Macchina, foi até lá para entender como funciona a ponte que leva clássico americano e japonês até a garagem de brasileiro. Quem recebe é Marco, da Floridian USA, um gaúcho que trocou a compra e venda de carros no Sul pela exportação de veículos de coleção e diz já ter mandado centenas de carros para o Brasil. Ele avisa logo de cara que aquilo ali não é o depósito da empresa, onde ficam os carros dos clientes, e sim a casa dele. A conta dele para os últimos cinco anos é curta: a procura triplicou.

Chevrolet Impala vermelho, Nissan Skyline R32 GT-R e Mazda RX-7 estacionados na entrada de uma casa na região de Orlando
Impala, Skyline R32 GT-R e RX-7 dividem a entrada de uma casa comum na região de Orlando. Reprodução: canal Macchina.
O episódio completo, publicado em 12 de agosto de 2026 no canal Macchina.

A regra dos 30 anos decide o que pode entrar

Em 2026, só entra no Brasil carro fabricado em 1996 ou antes. É a chamada regra dos 30 anos, e ela é a porta única: a Portaria Secex nº 23, de 2011, proíbe a importação de veículo automotor usado, e abre exceção apenas para o que se enquadra como bem de coleção.

O caminho não é o do despachante comum. O importador precisa ser pessoa física associada a um clube de veículos antigos filiado à Federação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA), e o carro precisa de um certificado de autenticidade emitido por entidade reconhecida pela Senatran. O pedido é feito no sistema eletrônico SISCAT, com licença de importação deferida, fatura comercial e quatro fotos coloridas do veículo (frente, traseira e as duas laterais). O serviço é gratuito, e a análise da documentação leva até 60 dias úteis. A base legal está na Portaria MDIC nº 235/2006 e nas Resoluções Contran nº 56/1998 e nº 957/2022.

O detalhe que decide compra é qual data conta. Vale o ano de fabricação, não o ano-modelo. Marco usa o Corvette C5 como exemplo: a linha 1997 começou a ser produzida em Bowling Green em outubro de 1996, então as primeiras unidades já cruzam a régua hoje, mesmo sendo “97” no documento. Ele conta que passou dois anos caçando exatamente esses carros e achou três brancos 96/97 em um mês, um deles com chassi 0024.

Importar carro clássico custa o mesmo imposto de um zero quilômetro

Aqui morre o mito do “carro antigo paga menos”. Segundo importadoras especializadas no assunto, o veículo de coleção enfrenta a mesma carga tributária de um zero quilômetro de luxo, cobrada em cascata sobre o valor aduaneiro.

O que incideComo pesa
Imposto de Importação (II)35% para a maioria das origens
IPIvaria conforme a motorização
PIS/COFINS-Importaçãosobre o valor aduaneiro
ICMSalíquota do estado do importador
Frete marítimo, seguro e despachofora dos tributos, entram no custo final

A conta ainda fecha porque a diferença de preço na origem é grande, e porque o mercado brasileiro cobra caro pela raridade. No vídeo, Marco insiste num ponto que costuma custar dinheiro a quem compra sozinho: nos Estados Unidos a distância de preço entre um carro mediano e um excepcional é pequena, enquanto no Brasil a mão de obra de funilaria e mecânica cobra a diferença depois. Comprar barato no escuro sai mais caro no fim. Foi o mesmo raciocínio que levou o fundador da FuelTech a fechar negócio à distância quando Anderson Dick comprou um Corvette C4 para um amigo cruzar os Estados Unidos.

Nissan Skyline R32 GT-R cinza com rodas douradas estacionado em entrada de garagem na Flórida
O Skyline R32 GT-R veio do Japão há dois anos e meio e ainda roda nos Estados Unidos. Reprodução: canal Macchina.

A janela dos anos 90 abriu, e ela muda o que chega

Até pouco tempo, a regra dos 30 anos entregava carro de fase de transição, com injeção mecânica e soluções complicadas de manter. Agora ela alcança os anos 90, e isso reposiciona o mercado inteiro.

Na prática, hoje cabem na régua o Corvette C4 inteiro e os primeiros C5, o Skyline R32 e o R33, o Mazda RX-7 da geração FD, o Toyota Supra e as Mercedes SL. São carros com ar-condicionado que funciona, desempenho que ainda impressiona e manutenção previsível. O C5 1997, por exemplo, saiu de fábrica com o V8 LS1 de 5,7 litros e 345 cavalos, com 0 a 96 km/h na casa dos 4 segundos e meio.

É por isso que Marco usa o próprio C5 1997 vermelho como carro de todo dia, com 70 mil milhas quando comprou e mais 10 mil rodadas por ele desde então. Mecânica original, só o escapamento trocado.

Por que o carro bom dura duas horas

A parte que o comprador brasileiro não vê é a velocidade. A Floridian USA opera com duas frentes: uma equipe de busca que fica no Brasil, dividida por região dos Estados Unidos, e uma equipe de compra que fica em campo. Quando um carro aparece, o relógio começa a correr.

Marco conta que já saiu de casa às 3h da manhã para pegar voo até a Califórnia e garantir um Impala, e que também dirige a madrugada inteira com caminhonete e trailer quando a distância compensa. Ele mantém três caminhonetes e três trailers prontos justamente para isso. Já buscou carro no Alasca, que desceu por terra até a Flórida, e conta que já trouxe veículo do Havaí.

Antes de o cliente decidir, o carro é filmado por cerca de 20 minutos, ponto positivo e ponto negativo, e a compra é feita presencialmente. Quando o vendedor fica longe, o carro vai para um self storage fechado, e a chave fica com o depósito até o transportador aparecer com autorização. O transporte em si funciona como aplicativo: cegonhas e caminhões menores com rota formada aceitam ou fazem contraproposta, e dá para escolher o motorista pela avaliação, pelo histórico de viagens e pelo tipo de carreta, aberta ou fechada.

A pressa tem um motivo cultural, e Marco é direto sobre ele. Nos Estados Unidos não existe o fio do bigode. Negócio fechado por telefone, com sinal pago, pode virar pó: o vendedor devolve o sinal e entrega o carro para o vizinho que apareceu com dinheiro na mão. No Brasil, diz ele, chegava a marcar a retirada para dali a uma semana e encontrava o carro esperando, sem sinal, com gente que nem conhecia.

Mazda RX-7 da geração FD verde-escuro à espera do embarque para o Brasil, na Flórida
O RX-7 foi vendido zero quilômetro nos Estados Unidos, tem menos de 50 mil milhas e já estava de saída para o Brasil. Reprodução: canal Macchina.

A disputa não é só com o comprador brasileiro

O erro de leitura mais comum é achar que o Brasil está sozinho na fila. Não está. Os mesmos carros estão saindo dos Estados Unidos para a Europa, a Colômbia, o Chile e o México, que fica ao lado e pode importar veículo com 15 anos ou mais, ou seja, tira do estoque antes de o brasileiro alcançar.

Tem nicho com dono, também. Marco afirma que os RX-7 estão desaparecendo em direção a Porto Rico e à República Dominicana, onde a cultura do motor rotativo é obsessiva. Quem quiser ver o tamanho disso tem endereço: o World Sport Compact Challenge, apresentado pela FuelTech, acontece de 21 a 25 de outubro de 2026 no Orlando Speed World Dragway, uma pista de quarto de milha homologada pela NHRA, a mesma entidade que organiza a arrancada profissional nos Estados Unidos.

O que muda no bolso depois que o carro chega

Uma vantagem antiga do carro antigo ficou maior em 2026. A Emenda Constitucional nº 137, promulgada em 9 de dezembro de 2025, criou imunidade nacional de IPVA para automóveis, caminhonetes e veículos de uso misto com 20 anos ou mais de fabricação, além de micro-ônibus, ônibus, reboques e semirreboques. Antes disso, a isenção era colcha de retalhos: cada estado decidia, e havia quem exigisse 30 anos. Um clássico importado pela regra dos 30 anos entra no país já com essa conta zerada.

Sobre peça, a comparação é dele e vale como experiência, não como tabela: Marco diz que levantou os preços das peças do próprio Corvette 1984 num fornecedor americano, converteu para real e encontrou valores abaixo dos do Gol que tinha no Brasil, citando uma bomba d’água original por pouco mais de R$ 300. Ele lembra também que a importação aérea de peça ficou mais simples, com prazo em torno de 15 dias.

Os carros da entrada

CarroSituação
Corvette C5 1997 vermelhoCarro de uso diário de Marco, 80 mil milhas, mecânica original
Nissan Skyline R32 GT-R 1990Veio do Japão há dois anos e meio, tração integral, uso pessoal
Nissan Skyline R33 1994RB25 turbo montado no Japão, acertado no álcool, tração traseira, destino confirmado no Sul do Brasil
Mazda RX-7 (FD)Vendido zero quilômetro nos Estados Unidos, volante à esquerda, menos de 50 mil milhas, embarcando para o Brasil
Chevrolet ImpalaComprado na Califórnia, com placa de coleção do estado
Corvette C5 branco 96/97Três unidades achadas em um mês, uma delas de chassi 0024

Sobre os C5 brancos, Marco levanta uma hipótese que ele mesmo apresenta como pesquisa própria, não como fato de fábrica: os primeiros exemplares brancos teriam sido carros de teste da GM. Ele cita o histórico de uma das unidades, vendida em 1998 com 15 mil milhas e com a própria montadora como proprietária até ali. Coleção do tipo já tem endereço no Brasil, como mostra a maior coleção de Dodge do país.

Mazda RX-7 verde-escuro e Corvette C5 branco estacionados lado a lado na entrada de uma casa na região de Orlando, na Flórida
RX-7 e Corvette C5 branco lado a lado: dois ícones dos anos 90 que agora cabem na regra dos 30 anos. Reprodução: canal Macchina.

O que isso ensina sobre alta performance

A vantagem de Marco não é saber mais de Corvette do que os outros. Muita gente no mercado sabe. A vantagem é tempo de reação, e tempo de reação não se improvisa na hora: se compra antes.

Os três trailers já estão engatados. A equipe já está dividida por região. Os vendedores americanos já sabem o nome dele antes de o anúncio existir, o que abre acesso a carro que nunca chega a ser anunciado. Quando a oportunidade aparece e dura duas horas, a decisão não precisa ser tomada, ela já estava tomada. O que sobra é executar.

É o mesmo mecanismo de quem compete. O atleta que decide o que vai fazer no momento em que a chance aparece já chegou tarde. O que decide o resultado é o trabalho feito quando ninguém estava olhando: o plano de prova ensaiado, o gesto repetido até virar automático, a logística resolvida antes do dia. A janela sempre é curta. Ganha quem chegou nela pronto.

O episódio é do canal Macchina, comandado por Tiago Kfouri, o TK, que publica bastidores de garagem e projetos no perfil @tkfouri no Instagram.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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