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Adriano Buzaid: do cockpit da F3 aos R$ 200 milhões em drones

Adriano Buzaid, CEO da Gohobby, ao lado do carro voador eVTOL EH216-S da EHang

Em 30 de agosto de 2010, no circuito de Snetterton, na Inglaterra, Adriano Buzaid largou na pole e liderou a corrida principal da Fórmula 3 Inglesa do começo ao fim. O segundo colocado cruzou a linha 7,538 segundos atrás. Chamava-se Jean-Éric Vergne, era companheiro de equipe de Buzaid na Carlin, foi o campeão daquela temporada e, dois anos depois, estreou na Fórmula 1. Menos de um mês depois de Snetterton, em Brands Hatch, Buzaid correu pela última vez na Europa. Tinha 22 anos.

A conta não fechou por falta de talento. Fechou por falta de orçamento. Para subir à GP3, à GP2 ou à Fórmula Renault 3.5, as três portas de entrada da Fórmula 1 naquela época, o piloto precisava levar patrocínio embaixo do braço, e ele não levou. Quinze anos depois, Buzaid é fundador e CEO da Gohobby, que fechou 2025 com R$ 200 milhões de faturamento vendendo drones, robôs e carro voador. E voltou a correr, no mesmo tipo de carro que ficou fora do alcance dele em 2010.

Quem é Adriano Buzaid, o piloto que virou empresário

Adriano Buzaid nasceu em 5 de julho de 1988, em São Paulo. Entrou no kart aos 14 anos usando as próprias economias e passou a revender tênis importados para se manter no esporte, segundo perfil publicado pela Forbes Brasil. Antes de sair do país, chegou a ser finalista das seletivas da Stock Car Junior organizadas por Tony Kanaan.

Aos 17 anos mudou-se para a Inglaterra, o caminho clássico de quem quer chegar à Fórmula 1. Em 2006 disputou a Fórmula Ford Inglesa pela Eau Rouge Motorsport, terminou em 13º e venceu em Rockingham. Em 2007 correu a Fórmula Renault Inglesa pela Eucatex, com dois pódios, e fechou a Winter Series em 7º com uma vitória em Croft.

O ano bom foi 2008. Pela Fortec, Buzaid terminou a Fórmula Renault Inglesa em 3º lugar, com cinco vitórias, seis poles e cinco voltas mais rápidas. Foi o resultado que abriu a porta da Fórmula 3.

Adriano Buzaid pilota seu monoposto da Fórmula Renault Inglesa no circuito de Oulton Park, em 2007
Buzaid deixa os boxes de Oulton Park na Fórmula Renault Inglesa, em julho de 2007. Foto: Skully Collins / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Snetterton 2010: a vitória que não abriu porta nenhuma

Buzaid estreou na Fórmula 3 Inglesa em 2008, chamado pela Carlin para as duas corridas finais da temporada. Em 2009, pela T-Sport, disputou 20 corridas, conquistou uma pole e uma vitória, e terminou em 6º. Em 2010 voltou à Carlin para a temporada completa: 30 largadas, duas poles e duas vitórias, em Silverstone e em Snetterton.

Foi o melhor ano dele. Uma sequência de sete pódios consecutivos o deixou a 12 pontos do terceiro colocado, e ele fechou o campeonato em 4º, com 238 pontos. Nas mesmas pistas, no mesmo período, dividiu grid com nomes que chegariam à Fórmula 1, entre eles Daniel Ricciardo, Valtteri Bottas e Sergio Pérez.

Nada disso bastou. O degrau seguinte tinha preço de tabela, e não era o cronômetro que decidia quem sentava no carro. É a mesma lógica que atleta de qualquer modalidade encontra quando vai atrás de dinheiro: marca grande raramente responde a pedido de patrocínio, ela procura quem já construiu o próprio ativo.

“Em 2011, chegamos a negociar uma vaga para a Fórmula 1, mas o tíquete para entrar era alto e não conseguimos fechar todos os patrocínios”, contou Buzaid à Exame.

O último registro dele em categoria internacional é 26 de setembro de 2010, na etapa de encerramento da Fórmula 3 Inglesa em Brands Hatch.

A Gohobby nasceu de um hobby: R$ 80 mil, um financiamento e 700 drones

De volta ao Brasil, Buzaid transformou em negócio o passatempo que cultivava na Inglaterra enquanto corria: aeromodelos e helicópteros de controle remoto. A Gohobby Future Technology foi fundada em 2011, com R$ 80 mil de capital próprio e US$ 1 milhão de financiamento, para importar quatro containers com 700 drones. O primeiro faturamento da empresa foi de R$ 300 mil.

Não havia estrutura. Buzaid acumulava contas a pagar e a receber, marketing, vendas, logística e design.

“Dormia no escritório com colchão inflável para não perder tempo”, contou à Exame.

O ponto de virada foi 2013, quando a empresa fechou parceria com a chinesa DJI, hoje a maior fabricante de drones do mundo. A Gohobby se tornou a maior importadora e distribuidora de drones do Brasil.

DJI e o agro: como a Gohobby chegou a R$ 200 milhões

O que fez a curva de faturamento virar para cima não foi o drone de hobby, foi o drone de pulverização. Em 2024, a Gohobby vendeu cerca de mil drones agrícolas no Brasil, que responderam por 54% do faturamento. Em 2025, a fatia do agro subiu para 60% da receita.

Os modelos que sustentam a operação são os DJI Agras T25 e T50, com tanques de 20 a 40 litros e capacidade de dispersão de sólidos de 25 a 50 kg. Os preços vão de R$ 120 mil a R$ 200 mil, dependendo da configuração.

O mercado ajudou. Segundo o IMARC Group, o setor de drones movimentou US$ 733 milhões no Brasil em 2025, com projeção de US$ 1,7 bilhão até 2034.

AnoFaturamentoObservação
2023cerca de R$ 100 milhõesprojeção divulgada pela empresa
2024cerca de R$ 150 milhõesdrones agrícolas = 54% da receita
2025R$ 200 milhõesalta de 55%, agro = 60% da receita
2026meta de R$ 250 mi a R$ 300 mimeta declarada
2028meta de R$ 500 milhõesmeta declarada

Os valores de faturamento são informados pela própria Gohobby em entrevistas e materiais de imprensa. A empresa é de capital fechado e os números não passam por auditoria pública.

Adriano Buzaid sentado sobre um drone agrícola DJI distribuído pela Gohobby
Os drones agrícolas responderam por 60% da receita da Gohobby em 2025. Foto: Divulgação/Gohobby

Carro voador, robôs humanoides e a aposta em inteligência artificial

A Gohobby foi a primeira empresa a trazer e operar um carro voador no Brasil. O modelo é o EH216-S, eVTOL da chinesa EHang, um veículo elétrico de pouso e decolagem vertical que voa sem piloto a bordo, comandado remotamente do solo. O primeiro voo experimental não tripulado no país foi feito em Quadra, no interior de São Paulo, com autorização da Anac. Buzaid foi o primeiro brasileiro a pilotar um EH216-S em território nacional.

A frente mais recente é robótica. No fim de 2024 a empresa trouxe ao Brasil o robô humanoide multifuncional da chinesa Unitree, com API aberta que permite programar reconhecimento facial, reconhecimento de voz e integração com sistemas corporativos. A primeira venda foi para uma universidade de Joinville, em Santa Catarina. A Gohobby também importa os cães-robôs GO2 e B2, usados em inspeção técnica, segurança patrimonial e operação em área de risco.

O argumento de venda é a queda de preço. Um humanoide que custava cerca de 3 milhões de euros há cinco anos hoje sai por US$ 7 mil a US$ 15 mil, com opção de aluguel mensal a partir de US$ 500.

Hoje, robôs humanoides e cães-robôs respondem por 7% da receita. A meta declarada é que cheguem a algo entre 20% e 30% até 2028.

Porto Velho, R$ 20 milhões e a meta de R$ 500 milhões até 2028

Para bancar o próximo salto, a Gohobby anunciou R$ 20 milhões de investimento na Região Norte, com centro de distribuição, escritório, oficina de manutenção e centro de treinamento em Porto Velho, em Rondônia. A operação atende Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima, onde a empresa já tem mais de 30 revendas ativas.

A aposta é geográfica. A Região Norte tem mais de 2 milhões de hectares cultivados e 15 milhões de hectares de pastagem, e a Gohobby projeta que a região represente cerca de metade da sua operação agrícola nos próximos anos.

Misano 2023: a volta aos monopostos treze anos depois

Em julho de 2023, aos 35 anos e treze anos depois da última corrida na Europa, Buzaid voltou aos monopostos. Foi para Misano, na Itália, disputar a BOSS GP pela MM International, ao volante de um Dallara GP2/11, exatamente a categoria de carro que a falta de patrocínio tinha barrado em 2010.

O fim de semana foi o seguinte: pole position na categoria Fórmula, segundo lugar na primeira corrida e vitória na segunda, com a melhor volta de um GP2 no circuito, 1min24s135.

Nunca tinha pilotado um carro de GP2 antes.

“Demorei umas 30 voltas para me adaptar ao carro”, disse à Band.

A diferença física é grande: no GP2 as trocas de marcha acontecem entre 13 mil e 14 mil rotações, contra cerca de 6 mil no Fórmula 3 que ele conhecia. Como fez só uma etapa, terminou o campeonato da BOSS GP de 2023 em 15º, com 49 pontos.

A volta não parou ali. Em 2025, Buzaid disputou o Endurance Brasil ao lado de Fernando Gorayeb, no Ligier JS P320 número 88 da Foresti Sports, e a dupla fechou a temporada em 3º na categoria P1, com 360 pontos.

O plano declarado não é temporada completa. É seletivo: duas corridas por ano, com as 24 Horas de Le Mans e o Brasileiro de kart shifter na lista de desejos.

O que a trajetória de Adriano Buzaid ensina sobre alta performance

A leitura fácil dessa história é “acreditou no sonho e voltou”. A leitura correta é mais dura e mais útil.

Resultado não é moeda de acesso. Buzaid terminou em 4º na F3 Inglesa e venceu o piloto que seria campeão e chegaria à F1. Isso não comprou o degrau seguinte. Em categoria de formação, o atleta que só entrega desempenho está entregando metade do trabalho. A outra metade é viabilizar a temporada, e ela precisa ser tratada com o mesmo profissionalismo do treino. O método do downhiller Igor Selau, que saiu de duas camisetas por ano para marcas internacionais, mostra que dá para atacar essa metade com método, e montar um media kit apresentável deixou de ser barreira técnica.

A saída não precisa ser o fim. Entre 2010 e 2023 Buzaid não correu profissionalmente, mas não largou o ambiente: voava, pilotava, testava equipamento. Quando a oportunidade voltou, ele levou 30 voltas para se readaptar a um carro que nunca tinha guiado. Manter o gesto vivo custa pouco e vale muito.

Ter carreira fora da pista muda a relação com a pista. O ponto da história não é o faturamento da Gohobby, é o que ele destravou. Em 2010, a temporada seguinte dependia de uma conta que não fechava. Hoje Buzaid corre pouco e escolhe onde, porque a vida dele não depende do resultado de domingo. É a mesma lógica que sustenta a estrutura montada por Kelly Slater fora da água: quem tem ativo próprio negocia de outro lugar.

A competência transfere. Leitura de cenário, tolerância a risco calculado, obsessão por milésimo e capacidade de operar sob pressão não são habilidades exclusivas de pista. São o mesmo repertório que sustenta uma operação que cresce 55% ao ano.

Carreira esportiva tem prazo de validade. Repertório, não.

Perguntas frequentes sobre Adriano Buzaid e a Gohobby

Quem é Adriano Buzaid?

Piloto brasileiro nascido em São Paulo em 5 de julho de 1988 e fundador e CEO da Gohobby Future Technology, maior importadora e distribuidora de drones do Brasil. Correu na Europa entre 2006 e 2010, com passagens por Fórmula Ford, Fórmula Renault e Fórmula 3 Inglesa.

Por que Adriano Buzaid não chegou à Fórmula 1?

Por orçamento, não por resultado. Depois de terminar a Fórmula 3 Inglesa de 2010 em 4º lugar, ele não conseguiu fechar o patrocínio necessário para subir à GP3, à GP2 ou à Fórmula Renault 3.5, as categorias de acesso à F1 na época.

Quanto fatura a Gohobby?

A empresa informa ter faturado R$ 200 milhões em 2025, alta de 55% sobre o ano anterior, com meta declarada de R$ 500 milhões até 2028. Os números são divulgados pela própria companhia e não passam por auditoria pública.

O que a Gohobby vende?

Drones da chinesa DJI, com destaque para os modelos agrícolas Agras T25 e T50, que respondem por 60% da receita. A empresa também importa robôs humanoides e cães-robôs da Unitree e o eVTOL EH216-S, da EHang, conhecido como carro voador.

Adriano Buzaid ainda corre?

Sim, de forma seletiva. Em julho de 2023 venceu uma corrida da BOSS GP em Misano, na Itália, com um Dallara GP2/11, e em 2025 terminou o Endurance Brasil em 3º na categoria P1, ao lado de Fernando Gorayeb.

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Diogo Moraes

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