Remco Evenepoel largou por último, foi o mais rápido desde a primeira parcial e cruzou a linha em 44min53s. No domingo (20), na abertura do Mundial de Ciclismo de Estrada de Montreal, no Canadá, o belga de 26 anos venceu o contrarrelógio individual pela quarta vez seguida e virou o primeiro homem da história a emendar quatro títulos consecutivos na prova.
A semana que começou com recorde termina neste domingo (27) com a prova de estrada masculina de elite, e sem o dono da camisa arco-íris. Tadej Pogacar, campeão em Zurique 2024 e em Kigali 2025, está fora da temporada desde a queda na Vuelta. Sem ele, a corrida perde o vencedor das duas últimas edições, e o nome que herda o favoritismo é justamente o de Evenepoel.
Quatro títulos seguidos no contrarrelógio: Evenepoel entra para a história
O percurso tinha 39,2 km e cerca de 220 metros de desnível, com passagem pela margem do rio São Lourenço e pelo Circuito Gilles-Villeneuve, a pista da Fórmula 1 em Montreal. Evenepoel completou a distância a 52,4 km/h de média. O italiano Filippo Ganna, bicampeão mundial da especialidade em 2020 e 2021, ficou 57 segundos atrás. O francês Paul Seixas, de 19 anos, levou o bronze a 1min13s, a primeira medalha dele num Mundial de elite.
Com o título, Evenepoel chega a quatro ouros no contrarrelógio (Glasgow 2023, Zurique 2024, Kigali 2025 e Montreal 2026) e iguala o suíço Fabian Cancellara e o alemão Tony Martin, os dois únicos com a mesma marca. Nenhum dos dois, porém, conseguiu os quatro em sequência.
“É incrível. O objetivo era vir e vencer aqui pela quarta vez seguida, e isso era uma grande motivação”, disse o belga à organização. Ele contou que atacou desde o início: “Depois de 6 km, tivemos uma referência de tempo pessoal e eu sabia que já estava na frente dos outros. Achei que tinha exagerado no ritmo até a primeira parcial, mas consegui continuar forçando”.

Os dez primeiros do contrarrelógio masculino
| Pos. | Ciclista | País | Tempo |
|---|---|---|---|
| 1 | Remco Evenepoel | Bélgica | 44min53s |
| 2 | Filippo Ganna | Itália | +57s |
| 3 | Paul Seixas | França | +1min13s |
| 4 | Brandon McNulty | Estados Unidos | +1min25s |
| 5 | Jakob Söderqvist | Suécia | +1min26s |
| 6 | Isaac del Toro | México | +1min38s |
| 7 | Stefan Küng | Suíça | +1min44s |
| 8 | Kasper Asgreen | Dinamarca | +1min48s |
| 9 | Daan Hoole | Países Baixos | +2min02s |
| 10 | Callum Thornley | Grã-Bretanha | +2min02s |
O sueco Söderqvist vinha abaixo do tempo de Seixas nas parciais quando escorregou numa curva e foi ao chão. Levantou rápido, mas perdeu a chance de medalha.
Reusser, Itália e os outros campeões da primeira semana
No feminino, a suíça Marlen Reusser defendeu o título no mesmo percurso no dia em que completou 35 anos. Fez 50min24s e deixou a britânica Zoe Bäckstedt a 40 segundos e a alemã Franziska Koch a 45.
Na terça-feira (22), a Itália venceu o revezamento misto por equipes, prova em que três homens e três mulheres dividem o percurso contra o relógio. Filippo Ganna, Matteo Sobrero, Mattia Cattaneo, Elisa Longo Borghini, Monica Trinca Colonel e Vittoria Guazzini marcaram 51min32s, 8s63 à frente da França e 19s90 à frente da Suíça. Foi o primeiro título italiano no formato.
Nos contrarrelógios sub-23, disputados na segunda-feira (21), o neerlandês Ryan Gal venceu com 7 segundos sobre o italiano Nicolas Milesi, e a australiana Felicity Wilson-Haffenden levou o feminino.
Por que Pogacar não defende o título em Montreal
Pogacar liderava a Vuelta a España quando caiu na 8ª etapa, em 29 de agosto, a caminho de Xeraco. O boletim da UAE Team Emirates-XRG listou concussão, fratura exposta e desviada na clavícula esquerda e fratura estável na sétima vértebra cervical. A Atleta Pro detalhou o abandono e o quadro médico na época. Ele foi operado em Barcelona no dia 31.
Em 5 de setembro, a equipe anunciou que o esloveno não volta a correr em 2026. Além do Mundial, ele perde o Europeu, em casa, na Eslovênia, e a Lombardia, onde buscaria o sexto título. “Claro que não é assim que eu queria terminar minha temporada. Agora, o mais importante é me recuperar direito e dar ao meu corpo o tempo de que ele precisa”, disse Pogacar.
O diretor médico da equipe, Adrian Rotunno, explicou a decisão: “Não há benefício em acelerar esse processo só para cumprir um prazo de corrida”. No mesmo comunicado, a UAE anunciou a renovação do contrato do esloveno até 2032. A temporada dele termina com o quinto título do Tour de France, que igualou o recorde da prova.

Sem o bicampeão, a Eslovênia vai para Montreal liderada por Primoz Roglic, vice da Vuelta. “É verdade que não ter o Tadej é uma desvantagem, mas também é uma vantagem”, disse o selecionador esloveno, Uros Murn, à RTV Slovenija. “Toda a atenção que estaria em nós agora vai para os belgas e os franceses. Vamos estar na terceira ou quarta fila de favoritos.”
O percurso: 12 voltas no Mont Royal e 3.803 metros de subida
A prova masculina de elite tem 273,7 km e 3.803 metros de desnível acumulado. A largada é no Quartier Dix30, em Brossard, na margem sul do rio. O pelotão cruza a ponte Samuel De Champlain, entra em Montreal e faz 12 voltas num circuito de 13,4 km em torno do Mont Royal, com 269 metros de subida a cada passagem.
A principal subida é a Voie Camillien-Houde, que começa logo depois da linha de chegada e é a mesma que decide o GP de Montreal, prova do calendário WorldTour disputada no mesmo circuito. Em seguida vem o Chemin de la Polytechnique, curto, com rampas que chegam a 11%. A Avenue Pagnuelo tem a última subida, a menos de 3 km do fim, e a chegada na Avenue du Parc é em leve aclive, o que pesa num eventual sprint de grupo reduzido.

É a segunda vez que Montreal recebe o Mundial. Em 1974, a cidade sediou a primeira edição fora da Europa, e o belga Eddy Merckx conquistou ali o terceiro e último título mundial de estrada da carreira, vencendo o francês Raymond Poulidor.
Os favoritos ao título mundial sem Pogacar
Remco Evenepoel (Bélgica). Campeão mundial de estrada em 2022 e vice em Kigali, ele chega em alta. Foi segundo no Tour de France com duas vitórias de etapa, ganhou a Clásica San Sebastián pela quarta vez e venceu o GP de Québec no sprint contra o italiano Giulio Ciccone. No GP de Montreal, foi quinto. Nenhum homem venceu o contrarrelógio e a estrada no mesmo Mundial; só Evenepoel e o espanhol Abraham Olano ganharam as duas provas na carreira.
Wout van Aert (Bélgica). Divide a liderança belga. Venceu a Paris-Roubaix em 2026, ganhou duas etapas e a camisa de pontos na Vuelta e tem duas pratas em Mundiais (2020 e 2023).
Isaac del Toro (México). Ganhou o GP de Montreal, no mesmo circuito, batendo Seixas no sprint a dois depois de ser o único a acompanhar o ataque do francês na Camillien-Houde. Foi sétimo em Kigali, a melhor colocação da história do México.
Paul Seixas (França). Completa 20 anos nesta quinta-feira (24). Em 2026, venceu a Volta ao País Basco e a Flèche Wallonne e foi quarto no Tour de France na estreia. Se vencer no domingo, será o campeão mundial de elite mais jovem da história, superando o belga Karel Kaers, que tinha 20 anos e 76 dias em 1934.
Mathieu van der Poel (Países Baixos). Campeão em Glasgow 2023 e bronze em Zurique 2024. Chega depois de vencer uma etapa da Volta a Luxemburgo com uma fuga solitária de 175 km.
Tom Pidcock (Grã-Bretanha). Campeão mundial de mountain bike cross-country em agosto, foi quarto em Québec e sexto em Montreal. Correm por fora nomes como Enric Mas, campeão da Vuelta, o próprio Roglic, o dinamarquês Mads Pedersen e o irlandês Ben Healy, bronze no ano passado.
Avancini e mais quatro brasileiros no Mundial
A Confederação Brasileira de Ciclismo levou cinco atletas a Montreal. Henrique Avancini, campeão brasileiro de contrarrelógio e nome histórico do mountain bike no país, fez o 39º tempo no contrarrelógio do dia 20, a 4min29s de Evenepoel, e volta ao percurso no dia 27, na prova de estrada.
Ana Vitoria “Tota” Magalhães representa o país na elite feminina, Henrique Bravo no sub-23 masculino, e os juniores Maitê Coelho e Bruno Octávio completam a equipe. Maitê chegou ao Canadá com o ouro no contrarrelógio júnior do Pan-Americano de 2026, na Colômbia.
Horários e onde assistir às provas de elite
Montreal está uma hora atrás de Brasília em setembro. As duas provas de estrada de elite caem no fim de semana:
- Sábado (26), estrada feminina de elite: 180,4 km, 8 voltas no Mont Royal, largada às 10h e chegada prevista às 15h10 de Brasília. A neerlandesa Demi Vollering, campeã do Giro e do Tour em 2026, é a favorita e pode se juntar a Annemiek van Vleuten como a única mulher a vencer as três provas na mesma temporada. A canadense Magdeleine Vallières defende em casa o título conquistado em Kigali.
- Domingo (27), estrada masculina de elite: 273,7 km, largada às 10h e chegada prevista às 16h40 de Brasília.
Na abertura do Mundial, nenhum canal de TV ou plataforma de streaming havia anunciado transmissão para o Brasil.
O que o Mundial sem Pogacar ensina sobre alta performance
A primeira lição está no contrarrelógio. Evenepoel não venceu quatro vezes seguidas só por talento, até porque Ganna, segundo colocado, também tem dois títulos mundiais da especialidade. Venceu porque transformou o contrarrelógio num processo de anos, com material desenvolvido junto do fabricante e uma meta assumida publicamente. O quarto título é o resultado acumulado desse processo, não um dia inspirado.
A segunda está na decisão da UAE. Pogacar poderia forçar um retorno e tentar o tri, e a equipe escolheu o contrário: tirou o prazo da mesa. “Não há benefício em acelerar esse processo só para cumprir um prazo de corrida” é uma frase que vale para qualquer atleta voltando de lesão. Alta performance é a que se sustenta por uma carreira, não o pico que custa a próxima temporada.
A terceira é sobre oportunidade. O selecionador esloveno falou em desvantagem e vantagem ao mesmo tempo, e o raciocínio vale para o pelotão inteiro. A ausência do melhor do mundo não entrega o título a ninguém, só abre a porta. Quem chega em Montreal com o trabalho feito, como Evenepoel, Del Toro e Seixas, é quem tem condição de passar por ela.
Quatro títulos seguidos não nascem de um dia bom
Na Atleta Pro Academy, atletas constroem o processo que sustenta o resultado, ao lado de gente que compete de verdade.







