Quem abre gabrielbortoleto.com.br dá de cara com uma contagem regressiva para a próxima corrida, no fuso horário de quem está lendo. Logo abaixo, um painel mostra Gabriel Bortoleto em 14º no Mundial de Pilotos, com 10 pontos, e aponta os dois oitavos lugares da temporada. Os números mudam sozinhos depois de cada Grande Prêmio.
No pé da página, uma linha discreta explica como tudo isso foi feito: “Desenvolvido com Lovable”. O site oficial do piloto brasileiro da Audi na Fórmula 1 não saiu de uma agência com departamento de tecnologia. Foi montado por um único desenvolvedor, numa plataforma de inteligência artificial que transforma texto em aplicativo.
Até maio, o site ainda falava de Kick Sauber
O endereço antigo rodava em WordPress. Pelas capturas do Internet Archive, em 10 de maio de 2026 o título da página ainda apresentava Bortoleto como piloto da “Stake F1 Team | Kick Sauber”. Naquela altura, a equipe já corria havia dois meses como Audi, que estreou como equipe de fábrica no GP da Austrália, em 8 de março.
O conteúdo era o de um site institucional clássico: biografia, temporadas, parceiros, contato e álbuns de fotos por etapa, desde a Fórmula 4 italiana de 2020. Tudo estático. Para atualizar um resultado, alguém precisava entrar no painel e editar a página na mão.
A troca aconteceu na primeira quinzena de junho. O Internet Archive ainda registra arquivos do WordPress no domínio em 4 de junho. Em 16 de junho, o endereço já exibia a versão nova, construída no Lovable.

Quem fez, e em quanto tempo
O autor é Damien Ghader, cofundador da agência Creme Digital, que trabalha com o Lovable e publica nas redes os projetos que faz na plataforma. Em 15 de julho, ele contou no LinkedIn: “Construí o site de um piloto de F1 com o Lovable. Estas funcionalidades levaram um dia”.
A lista que ele publicou tem quatro itens: dados da Fórmula 1 com estatísticas e resultados ao vivo, mídia sincronizada com a equipe de marketing, animações e redes sociais conectadas. E o diagnóstico do que existia antes: “O site dele era desatualizado, estático, sem experiência para o fã”.
O “um dia” vale para esse pacote de funcionalidades, não necessariamente para o projeto inteiro, com textos, fotos e ajustes. Mesmo assim, é uma escala de tempo que não existia para um site desse porte. Ghader resumiu a mudança no mesmo post: agora “um atleta, um criador ou um pequeno estúdio consegue entregar algo que antes precisava de um departamento inteiro por trás”.
O que o site do Bortoleto mostra
O site novo, em português e inglês, é organizado como um painel para o fã. As seções principais:
- Próxima corrida: contagem regressiva em dias, horas, minutos e segundos, no horário local do visitante.
- Telemetria da temporada: posição no campeonato, pontos, melhor resultado (8º em Silverstone), melhor classificação (8º em Spa-Francorchamps), corridas completadas e pódios.
- Resultados: tabela com a posição na classificação, a chegada e os pontos de cada etapa de 2026.
- Atlas de pistas: os 22 circuitos do ano, com o desenho do traçado, o número de voltas, a extensão, as curvas e o resultado do brasileiro em cada um.
- Direto do paddock: galeria de fotos organizada por Grande Prêmio.
- Loja: ainda fechada, com cadastro de e-mail para avisar da abertura.
- Contato: canais separados para imprensa, gestão e parcerias.
Uma faixa com as marcas que acompanham o piloto atravessa a página: Audi, Revolut, Mercado Livre, Porto, KitKat, Snapdragon e Motorola. É a vitrine que um patrocinador quer ver.

Como os números se atualizam sozinhos
Por trás do visual, o site é um aplicativo, não uma página estática. Os resultados e as estatísticas vêm de duas bases públicas e gratuitas de dados da Fórmula 1: a Jolpica-F1, sucessora da antiga Ergast, e a OpenF1, que publica dados das sessões. O rodapé dá o crédito às duas.
Quando um Grande Prêmio termina, as bases recebem o resultado e o site passa a exibi-lo sem que ninguém edite nada. O GP do Azerbaijão, no sábado (26), serviu de teste. Bortoleto cruzou a linha em 13º, mas horas depois levou 10 segundos de punição por ultrapassar Sergio Pérez durante o safety car e caiu para 15º. Na manhã de domingo, o site já mostrava o 15º lugar.
O dado sempre esteve disponível para qualquer um. O que mudou foi o custo de montar uma vitrine em cima dele.
O que é o Lovable, a plataforma por trás do site
O Lovable é uma startup sueca, com sede em Estocolmo, comandada por Anton Osika. A proposta é criar sites e aplicativos conversando com uma inteligência artificial: o usuário descreve o que quer em texto, a ferramenta gera o código e o projeto pode ser publicado ali mesmo.
Em 12 de agosto, a empresa anunciou uma rodada de US$ 400 milhões que a avaliou em US$ 13,3 bilhões, o dobro do valor de dezembro de 2025. Segundo Osika, os aplicativos feitos na plataforma recebem 900 milhões de visitas por mês.
A velocidade tem contrapartida. Em março, um pesquisador de segurança mostrou que uma falha da plataforma permitia acessar dados de projetos de outros usuários, e a correção definitiva levou 48 dias. A ferramenta acelera a construção, mas não dispensa alguém que entenda o que está sendo publicado e cuide do site depois que ele vai ao ar.
Por que site próprio virou ativo de atleta
Rede social é terreno alugado. O alcance depende do algoritmo, o formato muda sem aviso e o perfil mistura treino, vida pessoal e publicidade. O site é o endereço que o atleta controla, e costuma ser o primeiro lugar que um jornalista, um organizador de evento ou o marketing de uma marca consulta antes de fechar qualquer coisa.
A página de contato do Bortoleto mostra esse raciocínio. Imprensa, gestão e parcerias têm e-mails diferentes. Quem quer propor patrocínio é orientado a informar território, escopo e janela de ativação. Há até um canal para jovens pilotos pedirem mentoria de kart, com inscrições analisadas a cada trimestre.
É o atleta tratado como empresa, com vitrine, calendário, resultados e canal comercial organizados num só lugar. O guia sobre o que as marcas procuram em um atleta patrocinado mostra por que isso pesa na negociação, e o passo a passo de como conseguir patrocínio esportivo começa justamente pela forma como o atleta se apresenta.

Bortoleto na pista: 10 pontos em 2026
Campeão da Fórmula 3 em 2023 e da Fórmula 2 em 2024, Bortoleto estreou na Fórmula 1 em 2025 pela Sauber e segue em 2026 na mesma estrutura, agora equipe de fábrica da Audi. Aos 21 anos, soma 10 pontos na temporada, com dois oitavos lugares seguidos, em Silverstone e em Spa, e um nono na abertura, na Austrália.
O primeiro ano da Audi como fábrica tem sido de construção. Em julho, os 10 pontos da equipe eram todos do brasileiro, como mostrou a análise Bortoleto tem 10 pontos na F1. A Audi inteira também tem 10. Em Baku, a equipe levou o maior pacote de atualizações do grid, e Bortoleto foi o primeiro a testar as peças novas nos treinos livres.
O que isso ensina sobre alta performance
A barreira de custo e de tempo para um atleta ter um site profissional caiu. O que continua escasso é saber o que colocar nele. O site do Bortoleto funciona porque responde às perguntas de quem chega:
- Quem é o atleta e em que momento da carreira ele está.
- Quando e onde ele compete de novo.
- O que ele já fez, com números que se sustentam.
- Quem já investe nele.
- Como falar com ele, separando imprensa, gestão e parceria.
Nada disso exige estar na Fórmula 1. Um triatleta amador, uma lutadora de jiu-jitsu ou um piloto de kart regional têm calendário, resultados, apoiadores e contato. A diferença está em tratar essas informações como patrimônio da carreira, reunidas num endereço próprio e atualizadas com a mesma disciplina do treino.
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