Sete semanas antes do Mr. Olympia 2026, Ryan Terry teve uma hérnia de disco no pescoço. O braço esquerdo ficou dormente, os médicos recomendaram parar de treinar por seis a oito semanas e o britânico chegou a achar que não subiria ao palco. Subiu. Na noite de sábado (26), em Las Vegas, ele conquistou o quarto título seguido do Men’s Physique e igualou o recorde de Jeremy Buendia, dono de quatro títulos entre 2014 e 2017.
Terry venceu com 5 pontos, sete a menos que o vice Ali Bilal. O que o placar não mostra é o que Terry contou depois, nos bastidores e nos vlogs da preparação: seis semanas de tratamento diário, uma dieta cortada no limite para compensar os treinos que não conseguia fazer e o aniversário de seis anos do filho perdido na semana do campeonato.
O resultado do Men’s Physique no Mr. Olympia 2026
No Men’s Physique, os atletas sobem ao palco de bermuda e são avaliados por proporção, simetria e condicionamento, sem as poses obrigatórias do fisiculturismo. A colocação é definida na prévia: neste ano, a final não teve pontuação. A soma das notas dos juízes segue a lógica de sempre, em que quanto menor, melhor.
| Posição | Atleta | País | Pontos |
|---|---|---|---|
| 1º | Ryan Terry | Reino Unido | 5 |
| 2º | Ali Bilal | Afeganistão | 12 |
| 3º | Kyron Holden | EUA | 13 |
| 4º | Erin Banks | EUA | 20 |
| 5º | Brandon Hendrickson | EUA | 26 |
| 6º | Edvan Palmeira | Brasil | 29 |
| 7º | Isai Kesek | Indonésia | 37 |
| 8º | Vitor Chaves | Brasil | 38 |
| 9º | Carlos Asiedu Ocran | Gana | 46 |
| 10º | Kaique Santos | Brasil | 48 |
Terry levou US$ 50 mil. Bilal ficou com US$ 20 mil e Holden, com US$ 12 mil. Para Bilal, foi a terceira prata seguida no Olympia, depois de 2024 e 2025. Holden chegou a Las Vegas cotado para desbancar Terry: tinha batido Bilal no Pittsburgh Pro, e o próprio Nick Walker, que no mesmo sábado venceu a categoria principal (Nick Walker é campeão do Mr. Olympia 2026), apostava nele.
Na entrevista ao jornalista Tony Doherty, do NPC News Online, logo depois do título, Terry deu a medida do que enfrentou no palco. “Este ano teve, de longe, a disputa mais difícil, a mais competitiva, e foi o ano em que eu fui mais exigido”, disse, citando Holden, Bilal, Hendrickson e o brasileiro Edvan Palmeira entre os que poderiam ter vencido.

A lesão: hérnia na C5 e o braço dormente
Terry não contou a lesão enquanto ela acontecia. No vlog de preparação publicado no YouTube em 28 de agosto, a seis semanas do campeonato, falou só em um nervo comprimido no pescoço, na altura da vértebra C5, que causava dormência e formigamento. “Estão dizendo: olha, a gente não quer colocar nenhuma carga na pegada para não piorar”, explicou.
Em 3 de setembro, no Instagram, admitiu o tamanho do problema. “Foram semanas desafiadoras, para dizer o mínimo, com uma lesão que eu achei que muito possivelmente me impediria de competir este ano”, escreveu. Seria a primeira vez que ele abandonaria uma preparação desde que começou a competir, em 2010.
O relato completo veio no vlog seguinte, publicado no dia 4. Terry contou que teve uma hérnia de disco na C5, provavelmente numa sessão de boxe, e que a lesão comprimiu o nervo mediano do lado esquerdo. Durante semanas, sentiu formigamento no polegar, no indicador e no dedo médio, ficou com o braço e o ombro dormentes e não conseguia girar o pescoço. Segundo ele, os médicos recomendaram parar de treinar por seis a oito semanas, evitar qualquer esforço de pegada e tratar o pescoço até o quadro ceder.
“Isso não era uma opção para mim”, disse no vídeo. “Obviamente, a seis semanas do Olympia, eu não podia tirar oito semanas de folga.”
Seis semanas de tratamento, cinco a seis horas por dia
O que veio no lugar do descanso foi uma rotina de tratamento que o próprio Terry calculou em cinco a seis horas diárias. Acupuntura quase todos os dias, quiropraxia todos os dias, duas horas por dia de fisioterapia de tecido profundo, banho de gelo, sauna e terapia de luz vermelha. Os vlogs da reta final, gravados já nos Estados Unidos, registram mais sessões de fisioterapia a 16 e a 9 dias do campeonato.
Sem conseguir levantar um halter, ele trocou o gasto calórico do treino por corte na dieta para seguir perdendo peso. “Eu fui um zumbi ambulante por duas, três semanas”, resumiu. A três semanas do Olympia, estava cerca de 2 kg acima do peso de palco, mas avisou: “A lesão ainda não está 100%. Ainda não tenho mobilidade total”.
“Teve momentos em que eu deveria ter parado”
Terry não vendeu a decisão como exemplo. No mesmo vlog de 4 de setembro, disse que se orgulhava de ter seguido em frente, mas reconheceu o risco. “Teve momentos em que eu deveria ter parado e escutado os médicos. Eu deveria ter parado”, afirmou, antes de atribuir a insistência à vontade de chegar ao quarto título.
Depois da vitória, nos bastidores, ele evitou transformar a lesão em desculpa ou em epopeia. “Não quero pegar o violino e dizer: ‘ah, a nossa preparação foi assim por causa disso, disso e daquilo’. Mas, sim, umas sete semanas atrás eu tive uma hérnia no disco C5, no pescoço”, contou a Doherty. “O tempo todo isso me fez perceber o quanto eu consigo ser resiliente e o quanto eu quero isto.”
O aniversário que ficou para trás
O custo que Terry mais citou não foi físico. Na semana anterior ao campeonato, já em preparação nos Estados Unidos, ele perdeu o aniversário de seis anos do filho. “Perdi o aniversário do meu filho na semana passada, e isso me destruiu completamente”, disse na entrevista ao NPC News Online. “Então tenho orgulho de levar isto de volta para ele.”
Foi o primeiro Olympia que o menino acompanhou. Em casa, no Reino Unido, deixaram que ele ficasse acordado para ver a prévia, e Terry contou ter um vídeo do filho gritando “papai” para a televisão. O título, o garoto ainda não tinha visto: quando o pai deu a entrevista, eram 4h da manhã no horário britânico.
Onze Olympias, do oitavo ao primeiro lugar
O tetra fecha uma trajetória longa. Terry conquistou o cartão profissional em 2013 e estreou no Olympia em 2015, com um quarto lugar. Foi vice em 2016 e depois oscilou por cinco edições: sexto em 2017, terceiro em 2018, quinto em 2019, oitavo em 2020 e sétimo em 2022. O primeiro título veio só em 2023, na oitava participação, e desde então ele não perdeu mais.
“Fiquei em oitavo, sétimo, sexto, quinto, quarto, terceiro, segundo, primeiro, primeiro, primeiro, primeiro”, enumerou nos bastidores. Em onze edições, passou por todas as colocações do primeiro ao oitavo lugar.
Com o quarto título, Terry alcança Jeremy Buendia, campeão de 2014 a 2017, na marca de mais conquistas da categoria, criada no Olympia em 2013. É também o único campeão do Men’s Physique que não é dos Estados Unidos. “Ganhar um título do Olympia era o meu sonho. Igualar o recorde, que para mim era inimaginável, foi um sonho realizado”, disse. Um quinto título, em 2027, daria a ele o recorde isolado.
Três brasileiros no top 10 do Men’s Physique
O Brasil não subiu ao pódio da categoria, mas colocou três atletas entre os dez primeiros. Edvan Palmeira foi o sexto, com 29 pontos, e ganhou a citação de Terry entre os adversários mais duros da noite. Vitor Chaves terminou em oitavo, com 38, e Kaique Santos em décimo, com 48.
As sete medalhas brasileiras do fim de semana saíram todas na sexta-feira, com os títulos de Natalia Coelho e Eduarda Bezerra e o vice de Lucas Garcia na 212. O balanço está em Brasil sai do Mr. Olympia 2026 com dois títulos e sete pódios, e a história de Lucas, membro da Atleta Pro Academy, em Lucas Garcia é vice no Mr. Olympia 2026.
A entrevista completa de Terry ao NPC News Online, em inglês:
O que a temporada de Terry ensina sobre alta performance
O placar de 2026 é a parte menor da história. O título que parece fácil, com sete pontos de folga, foi construído em onze Olympias, com um oitavo lugar em 2020 no meio do caminho e oito anos entre a estreia e o primeiro troféu. Quando a lesão chegou, havia por trás dela uma carreira de competição iniciada em 2010 para segurar a preparação.
A outra metade da história é o preço, que o próprio Terry não escondeu: semanas de dor, uma dieta que o deixou sem energia, a orientação médica que ele admite não ter seguido por inteiro e uma festa de aniversário que não volta. O caso não prova que vale a pena competir machucado. Mostra que, na alta performance, toda decisão desse tamanho tem custo, e que quem a toma precisa saber exatamente o que está pagando.
Onze Olympias até o primeiro título: processo mais tempo é igual a resultado
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