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FuelTech vende moletom, boné e chimarrão: a marca de peças virou grife

Vista aérea de mil carros customizados perfilados na pista durante o festival de inauguração do Autódromo FuelTech Velopark, em Nova Santa Rita (RS)

Na loja online da FuelTech dá para comprar a central eletrônica que gerencia um motor de mais de 4 mil cavalos. Na mesma loja, dois cliques depois, dá para comprar um kit de cueca por R$ 99, uma bandana para o cachorro por R$ 39 e uma cuia de chimarrão assinada pelo fundador da empresa por R$ 119.

Não é desvio de rota. É o estágio mais avançado de uma jogada que poucas marcas ligadas ao esporte brasileiro executaram até o fim: parar de vender só a peça e começar a vender o pertencimento.

A loja que tem mais camiseta do que sensor

A área de vestuário e acessórios do site da FuelTech está dividida em dez linhas: Anderson Dick Collection, moletons, camisetas, linha infantil, linha feminina, casacos e jaquetas, calçados e meias, bonés, acessórios e adesivos. São quatro páginas de catálogo, com preços entre R$ 25 e R$ 419.

LinhaExemplosPreço
CamisetasGerações FT, Drift FT, Piloto FT, Copa FTR$ 89 a R$ 139
MoletonsCircuito FT, Verde FT, Aberto AFDR$ 299
JaquetasPuffer FT, Bomber Militar, FleeceR$ 379 a R$ 419
BonésTrucker Camuflado, Trucker MotorsportsR$ 79
Bolsas e mochilasMochila Textura Automotiva, Shoulder Bag ProR$ 79 a R$ 389
Casa e uso pessoalAlmofada FuelTech, Kit Cueca, Bandana FuelPetR$ 39 a R$ 99
Chimarrão AFDCuia e bomba Anderson DickR$ 89 a R$ 119
Quatro peças de vestuário da FuelTech lado a lado: camiseta preta da Anderson Dick Collection com estampa de Mustang 1968, moletom Circuito FT, jaqueta Motorsports Race e boné do Autódromo FuelTech Velopark
Camiseta Mustang AFD, moletom Circuito FT, jaqueta Motorsports Race e boné do Autódromo FuelTech Velopark: quatro peças de um catálogo com dez linhas. Fotos: divulgação FuelTech.

Fabricante de injeção eletrônica programável fundada em 2003 em Porto Alegre, a FuelTech nasceu vendendo tecnologia para quem prepara motor. Hoje vende almofada, estojo, chaveiro e camiseta infantil. A empresa não trocou de negócio. Ela ampliou a definição do que é o produto dela.

A operação também não é só digital nem só brasileira. Existe loja física, a FT Store, e o braço norte-americano da empresa mantém a própria seção de merchandising, com bonés, camisetas e moletons para homens, mulheres e crianças. A missão declarada da companhia é “criar inovações para apaixonados por veículos”. Repare que a frase não menciona motor, injeção nem eletrônica. Ela menciona pessoas.

Por que uma fabricante de eletrônica precisa vender camiseta

Porque o mercado de peça técnica tem teto e o mercado de identidade não tem.

Quem compra uma central programável de gerenciamento de motor é um público restrito: preparador, piloto, oficina especializada, entusiasta que já decidiu gastar com performance. É uma compra cara, técnica e rara. O mesmo cliente pode passar anos sem voltar.

Quem compra uma camiseta de R$ 99 é qualquer pessoa que assistiu a uma final de corrida de arrancada e quis levar um pedaço daquilo para casa. É uma compra barata, emocional e recorrente. E produz um efeito que a peça nunca produz: quem veste sai andando com a marca na rua.

A peça resolve um problema mecânico. A camiseta resolve um problema de identidade. O primeiro mercado é finito e depende de quanto o cliente pode investir no carro. O segundo cresce junto com o público do esporte, e o público do esporte é sempre maior que o número de carros na pista.

Existe ainda um terceiro efeito, o menos óbvio. Cada peça vendida é uma mídia que o cliente pagou para carregar. A empresa não desembolsa nada por ela e não controla onde ela aparece, o que em geral é ruim para uma marca, mas aqui é o contrário: ela aparece exatamente onde o público-alvo está, no encontro de carros, na oficina, na arquibancada, no posto de gasolina. Nenhuma campanha compra essa distribuição.

Equipe de mecânicos com camisetas e bonés da própria equipe empurra carro de arrancada em meio à fumaça do burnout no Autódromo FuelTech Velopark
No paddock da arrancada, camiseta e boné de equipe são o uniforme não oficial do público.

A coleção que vende memória, não tecido

A Anderson Dick Collection, batizada com o nome do engenheiro eletricista que fundou a empresa, é o exemplo mais direto. As camisetas não estampam produtos FuelTech. Estampam DeLorean, Saveiro, Vectra GSI 2.5, Pickup F1000, Mustang e Barracuda, a preços a partir de R$ 119.

Nenhuma delas é catálogo. Todas são gatilho de memória. Falam com quem cresceu olhando esses carros e hoje tem cartão de crédito.

A linha Gerações FT confirma a leitura: existe em versão adulta (R$ 99) e infantil (R$ 89). A marca vende para o cliente de hoje e recruta o cliente de 2040 no mesmo pedido.

Do produto ao palco: a empresa comprou o autódromo

Em outubro de 2025, o Velopark, em Nova Santa Rita (RS), anunciou a venda. O autódromo ficou com a FuelTech, o kartódromo com a Techspeed, e a nova gestão assumiu em 2026. O traçado passou a se chamar Autódromo FuelTech Velopark.

“O Velopark é mais do que um autódromo, é parte da nossa trajetória e da nossa essência. Sempre foi e será nossa pista perto de casa”, declarou Anderson Dick no anúncio da compra.

A empresa também informou que vai usar o complexo “como campo de provas e laboratório vivo para novos produtos”. O autódromo virou, ao mesmo tempo, centro de desenvolvimento, mídia própria e ponto de venda. Naming rights que a maioria das marcas aluga por temporada aqui viraram patrimônio.

Do palco à competição: a Copa FT BR Sport

Com a pista na mão, a marca criou o próprio campeonato. A Copa FT BR Sport de Arrancada tem cinco etapas em 2026, e a terceira acontece entre 31 de julho e 2 de agosto, com expectativa de 180 pilotos de três países.

A prova cabe em 201 metros e pouco mais de quatro segundos nas categorias de ponta. Na Pro Mod, a principal, os carros passam de 4 mil cavalos e cruzam a linha acima de 300 km/h.

Ter campeonato próprio resolve o problema mais caro do marketing esportivo: depender do calendário alheio. Quem patrocina compra espaço em um evento de outro. Quem organiza define a data, o regulamento, o preço do ingresso, o conteúdo gerado e a quantidade de logo em cada metro de mureta.

Dois carros de arrancada disputam lado a lado os 201 metros de pista durante etapa da Copa FT BR Sport no Autódromo FuelTech Velopark
Na Pro Mod, principal categoria da Copa FT BR Sport, os carros passam de 4 mil cavalos e 300 km/h.

Vinte mil pessoas e ingresso esgotado antes do dia

O festival de inauguração oficial do Autódromo FuelTech Velopark aconteceu em 7 de fevereiro de 2026, das 17h à meia-noite, com estimativa de mais de mil carros customizados e 20 mil visitantes.

A programação não era só corrida: exposição de carros perfilados na pista iluminada, shows de drift com participantes nacionais e internacionais, um setor chamado Arena Insana com burnout e apresentações de pilotos, área off-road, podcasts ao vivo, shows musicais, praça de alimentação e espaço infantil. Ingressos e estacionamento esgotaram antes da data, sem venda na bilheteria.

Um evento de sete horas com espaço para criança e praça de alimentação não é evento de peça automotiva. É evento de marca. E quem passa sete horas dentro dele sai bem mais propenso a comprar a camiseta.

O loop que fecha a estratégia

O elo final é o mais revelador. Para a terceira etapa da Copa FT, a marca anunciou que cada R$ 100 gastos na loja física dão direito a dois ingressos do evento.

Loja alimenta arquibancada. Arquibancada alimenta loja. E a arquibancada inteira vira vitrine ambulante da marca na segunda-feira, sem custo de mídia. Poucas empresas do esporte brasileiro conseguem desenhar esse circuito fechado, porque poucas são donas dos três pedaços ao mesmo tempo: o produto, o palco e a competição.

O que a Fórmula 1 já sabia

A leitura não é original da FuelTech. É a mesma que a categoria mais rica do automobilismo aplica há anos.

A Fórmula 1 fechou 2025 com receita recorde, cerca de 3,28 bilhões de euros, alta de 14% sobre o ano anterior. Dentro desse total, o bloco que reúne hospitalidade, logística e licenciamento respondeu por 20,3%, cerca de 666 milhões de euros. As dez equipes do grid somaram 4,14 bilhões de euros em receita, crescimento de 16,5% em um ano.

Licenciamento e experiência deixaram de ser sobra de orçamento e viraram linha de receita própria, do mesmo jeito que a conta das equipes deixou de depender apenas de logo no carro. Na NASCAR, onde o patrocínio banca quase tudo, a lógica é a mesma.

A FuelTech aplica o mesmo princípio em escala brasileira, num nicho que quase ninguém disputava.

O que isso ensina sobre alta performance

Todo atleta começa a carreira como peça. Vende resultado, e só. Enquanto a receita depender exclusivamente do desempenho, o teto dela é o do cronômetro, e o cronômetro sempre para.

O caminho que a FuelTech percorreu cabe em três movimentos, e nenhum deles exige ser uma empresa:

  1. Definir a categoria antes do resultado. A marca não se apresenta como fabricante de central eletrônica. Ela se apresenta como o mundo da performance automotiva. O atleta que se define só pela prova que corre fica preso ao resultado da prova.
  2. Construir palco próprio. Não dá para comprar um autódromo, mas dá para criar o treino aberto, o grupo de corrida, o canal, o evento anual da cidade. Palco próprio garante audiência quando o calendário oficial não colabora.
  3. Vender pertencimento, não desempenho. Ninguém compra a camiseta Gerações FT pela qualidade do algodão. Compra porque quer estar do lado de dentro. Quem acompanha um atleta quer exatamente a mesma coisa.

A arrancada ilustra o princípio melhor que qualquer outra modalidade. A prova dura quatro segundos e não admite recuperação: não existe segunda volta para consertar erro de largada. O resultado se revela na pista, mas se constrói inteiro antes dela. Marca funciona igual. Ela não aparece no dia da vitória. Ela é o que já estava pronto quando a vitória veio.

Da central eletrônica ao autódromo: conheça a marca por trás da arrancada brasileira

Tecnologia de gerenciamento de motor, a Copa FT BR Sport e a loja oficial estão no mesmo endereço.

Conhecer a FuelTech

Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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