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Terminar vencendo: a mente de Guilherme Malheiros no CrossFit Games

Guilherme Malheiros levanta uma barra carregada durante competição de CrossFit

No domingo, 26 de julho de 2026, quando o CrossFit Games chegou ao fim em San Jose, na Califórnia, o nome a cruzar a linha da icônica Fibonacci Final com uma vitória foi o de um brasileiro: Guilherme “Gui” Malheiros. Foi o ponto final de uma campanha que o deixou em nono lugar na classificação geral masculina, com 904 pontos, numa prova vencida por James Sprague. Dito assim, “nono” pode parecer pouco. Mas quem acompanha o esporte sabe que essa foi descrita como uma das edições mais longas e difíceis da história dos Games, uma pura guerra de desgaste, com mais eventos do que nunca. E terminar essa guerra vencendo o último evento diz muito sobre a cabeça de quem a atravessou.

Como Treinador Mental de Atletas, é justamente esse contraste que me interessa. A forma como Malheiros construiu, evento após evento, uma performance que se manteve competitiva do primeiro ao último dia. Abaixo, os pilares que sustentam essa mentalidade.

1. O “champion mindset” e a diferença entre confiança e arrogância

Quando lhe perguntaram sobre sua forma de pensar, Malheiros já respondeu com uma frase que resume seu funcionamento interno: não é arrogância, é uma mentalidade de campeão que o faz pensar assim. A distinção é importante e frequentemente mal compreendida.

A arrogância é uma máscara: ela protege o atleta do medo negando a possibilidade de fracasso. A mentalidade de campeão é o oposto, ela encara o fracasso de frente e ainda assim escolhe acreditar. Malheiros não diz que é imbatível; ele diz que se prepara para vencer e age de acordo com isso. Essa autoimagem funciona como um filtro: define quais riscos ele topa correr, com que postura entra em cada evento e como interpreta um resultado ruim no meio da competição. Para qualquer atleta, a lição é que a confiança útil não é a que nega a dificuldade, e sim a que se banha nela e permanece de pé.

Guilherme Malheiros correndo durante uma prova do CrossFit Games
Malheiros em prova de corrida no CrossFit Games. Imagem de arquivo, edição de 2021. (Foto: The Barbell Spin)

2. Resiliência numa guerra de desgaste

A edição de 2026 foi montada para quebrar. Mais eventos, mais dias, mais volume: um formato que transforma a classificação final numa disputa de resistência, em que só os mais duros sobram no topo. Nesse cenário, manter-se entre os dez melhores exige uma habilidade mental específica: a capacidade de recuperar-se entre os eventos e de não deixar que um resultado ruim ou uma vitória contamine a prova seguinte.

Malheiros teve altos e baixos ao longo da semana. Em um evento de força, agachou 550 libras (cerca de 250 kg), ficando a apenas 5 libras do vencedor Colten Mertens. Em uma prova de corrida, colou em Ricky Garard e terminou a apenas 0,22 segundo dele. Em um evento de ginástica, superou quase todos os rivais por vinte segundos ou mais, mas ainda assim ficou atrás de Victor Hoffer. Cada um desses eventos exige uma reinicialização emocional: fechar o que passou, bom ou ruim, e chegar zerado ao próximo. Essa é a musculatura mental que sustenta uma campanha inteira, e ela se treina como qualquer outra.

3. Terminar vencendo: o significado psicológico da Fibonacci Final

Há algo simbólico em como Malheiros encerrou os Games. Já sem chance de pódio geral, com o corpo destruído por quase uma semana de competição, ele venceu a Fibonacci Final, um dos eventos mais emblemáticos do calendário. Antes disso, já havia cravado o evento “3D Throw”, com pontuação de 123.

Do ponto de vista da performance mental, isso é revelador. O atleta que desliga quando o objetivo maior já não está ao alcance é comum; o que continua competindo com máxima intensidade quando o troféu já era é raro. Terminar vencendo, sem nada em jogo na classificação, mostra que a motivação de Malheiros não depende apenas do prêmio externo. Ele compete pela própria exigência, pelo padrão interno de quem quer ganhar o evento que está diante de si, não o evento que está na cabeça dos outros. Esse é o tipo de motivação que sustenta carreiras longas, porque não desmorona quando o resultado vira contra.

Guilherme Malheiros em competição pelo World Fitness Project
Malheiros em etapa do World Fitness Project, em Mesa, nos Estados Unidos, em 2025. (Foto: The Barbell Spin)

4. Foco na tarefa presente, evento a evento

O CrossFit é, por natureza, um esporte que castiga quem se distrai com o placar. São dezenas de eventos, cada um exigindo uma habilidade diferente: remo, agachamento, ginástica, corrida, força bruta. Malheiros distribuiu suas melhores atuações ao longo de toda a competição justamente porque tratou cada evento como uma tarefa isolada, e não como um degrau ansioso rumo à classificação final.

Essa fragmentação é uma ferramenta mental poderosa. Quando o atleta olha a montanha inteira (“faltam doze eventos, preciso recuperar tantos pontos”), ele congela. Quando olha apenas o próximo passo (“agora é só esse agachamento, só essa série”), ele age. A campanha de Malheiros é um retrato de foco no processo: o resultado geral foi consequência da soma de tarefas bem executadas, não de uma obsessão com a tabela.

5. Os pilares físicos que sustentam a cabeça

A clareza mental sob fadiga não existe sem uma base física preparada para ela. Malheiros treina na CrossFit Mayhem, em Cookeville, Tennessee, sob a influência de Rich Froning, um dos maiores nomes da história do esporte. Ao chegar lá, ele notou que a intensidade era muito maior do que aquela a que estava acostumado, mas que passou a treinar de forma mais eficiente.

Esse detalhe importa. Treinar num ambiente onde o padrão é mais alto recalibra a percepção do que é “difícil”. O que antes parecia limite vira rotina, e o atleta desloca a própria fronteira do possível. A eficiência que ele menciona também é mental: aprender a extrair mais de cada sessão, a poupar energia onde não conta e a gastá-la onde decide. Numa competição de desgaste como os Games de 2026, essa economia treinada é o que mantém a cabeça lúcida quando o corpo já pediu para parar.

A construção: do basquete a colocar o Brasil no topo do CrossFit mundial

A história de Malheiros começa longe do CrossFit. Ele entrou no esporte ainda jovem buscando ganhar explosão para o basquete, e o talento raro que mostrou no ginásio rapidamente transcendeu a quadra. A família teve papel decisivo: incentivou-o a priorizar essa aptidão natural em vez do caminho escolar tradicional, uma aposta ousada que moldou toda a trajetória.

O talento apareceu cedo. Ainda adolescente, em 2017, ficou em segundo na divisão Boys 16-17. Como atleta individual, saltou do 48º lugar nos Games de 2019 para o sétimo em 2021, conquistando o título de Atleta Que Mais Evoluiu (Most Improved) daquele ano. Ao longo do caminho, assumiu para si um propósito maior que o próprio resultado: ter orgulho de ser o cara que está levando o Brasil a outro patamar de reconhecimento no CrossFit. Essa identidade, competir por algo maior do que si mesmo, é um dos combustíveis psicológicos mais potentes que existem, e ajuda a explicar por que ele continua entregando mesmo nos dias em que o pódio escapa.

O que fica

O nono lugar de Malheiros em 2026 não é o fim de uma história de superação, é um capítulo dela. Numa das edições mais duras já montadas, ele se manteve entre os dez melhores do planeta, cravou eventos individuais e teve a fibra de terminar vencendo quando o troféu maior já não estava em jogo. O que ele oferece a outros atletas não é uma fórmula mágica, e sim um conjunto de escolhas mentais treináveis: acreditar sem arrogância, recuperar-se entre os erros, competir pela exigência interna, focar na tarefa presente e apoiar tudo isso numa base física construída num ambiente de alto padrão. É assim que se constrói uma mente que continua rendendo quando a maioria já desistiu.

Leia também: Guilherme Malheiros: o 30º lugar que o levou de volta aos Games · O Brasil tem 31 atletas no CrossFit Games e um título a defender · Quanto ganha o vencedor do CrossFit Games?

Perguntas frequentes

Em que lugar Guilherme Malheiros terminou o CrossFit Games 2026?

Malheiros terminou em nono lugar na classificação geral masculina, com 904 pontos. A competição foi vencida por James Sprague.

Qual prova Guilherme Malheiros venceu no CrossFit Games 2026?

Ele venceu a Fibonacci Final, o último evento da competição, quando já não tinha chance de pódio geral. Antes disso, também havia cravado o evento “3D Throw”, com pontuação de 123.

Onde Guilherme Malheiros treina?

Na CrossFit Mayhem, em Cookeville, no Tennessee, sob a influência de Rich Froning. Ao chegar lá, ele notou que a intensidade era muito maior do que a que estava acostumado, mas que passou a treinar de forma mais eficiente.

Como Guilherme Malheiros começou no CrossFit?

Ele entrou no esporte ainda jovem buscando ganhar explosão para o basquete. O talento apareceu rápido e a família o incentivou a priorizar essa aptidão natural em vez do caminho escolar tradicional.

O que é o “champion mindset” de que Malheiros fala?

É uma mentalidade de campeão, que não se confunde com arrogância. A arrogância protege o atleta do medo negando a possibilidade de fracasso; a mentalidade de campeão encara o fracasso de frente e ainda assim escolhe acreditar.

Como um atleta mantém o foco numa competição com dezenas de provas?

Tratando cada evento como uma tarefa isolada, e não como um degrau rumo à classificação final. Olhar a montanha inteira congela o atleta; olhar só o próximo passo o faz agir.

Por Nicholas Pasqualetto, Treinador Mental de Atletas.

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