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Renan Borges no Mundial de Gravel: o caminho do gaúcho até a Austrália

Ciclista Renan Borges pedalando na seletiva da UCI Gravel World Series em Camboriú

Quatro anos atrás, Renan Borges se inscreveu numa ultramaratona de mountain bike em São Francisco de Paula, na Serra Gaúcha, como mais um entre tantos. Neste domingo (11), ele alinha em Nannup, na Austrália Ocidental, para correr o Campeonato Mundial de Gravel da UCI com a camisa do Brasil.

Membro da Atleta Pro Academy, o gaúcho chega à prova depois de sete meses de corrida atrás de vaga, de resultado e de dinheiro. “Esse era o meu objetivo quando decidi virar ciclista, alinhar para competir em nível mundial”, escreveu na véspera.

Renan Borges e Henrique Avancini pedalam lado a lado no reconhecimento do percurso do Mundial de Gravel em Nannup
Renan Borges (à direita) e Henrique Avancini no reconhecimento do percurso em Nannup. Foto: reprodução Instagram @renan.borgess

A vaga veio em Camboriú

O caminho começou em março, em Camboriú (SC), na única etapa brasileira da UCI Gravel World Series, o circuito que serve de seletiva para o Mundial. A regra é simples e dura: só os 25% mais bem colocados de cada faixa etária ganham o direito de disputar o título mundial.

“Amanhã eu alinho na largada em busca de um sonho”, publicou Renan na noite anterior. Terminou em 4º lugar na categoria 19 a 34 anos e entre os cinco primeiros da classificação geral, numa prova vencida por Henrique Avancini, que completou os 113 km em 3h27min21s e cravou o recorde do percurso.

A confirmação oficial saiu em abril. “Feliz demais em anunciar que conquistei essa vaga, agora é correr atrás do que é necessário pra eu assumir isso e alinhar em uma prova de mundial”, escreveu. A segunda parte da frase era a mais difícil.

Da corrida de rua para a bicicleta

A história de Renan no esporte começa longe da bicicleta. Nos jogos escolares do Ensino Fundamental, ele se destacava nas provas de corrida de pista. Depois, com a entrada no mercado de trabalho, se afastou das competições.

Já com 20 e poucos anos, voltou a correr com frequência, mas sem orientação, e as lesões apareceram. A saída foi a bicicleta. Nos passeios com os amigos pela montanha, deixava todo mundo para trás nas subidas, e foram esses mesmos amigos que o empurraram para as provas. Hoje, além de atleta, ele é treinador na Cumbre Treinamento Total e usa o perfil para explicar recuperação, lactato e VO2 máximo aos alunos e seguidores.

O currículo foi crescendo junto: campeão gaúcho em 2023 e segundo colocado no Festival Brasil Ride em 2024.

Renan Borges no alto do pódio da elite na Three Race Bike Ultramarathon em São Francisco de Paula
Renan no alto do pódio da Three Race, em São Francisco de Paula. Foto: reprodução Instagram @renan.borgess

Sete meses de preparação

Com a vaga garantida, a temporada virou preparação para Nannup. Uma semana depois da seletiva, foi vice na 1ª etapa do Campeonato Gaúcho de MTB. Em abril, voltou à Three Race Bike Ultramarathon, em São Francisco de Paula, a mesma prova em que tinha largado como iniciante em 2022, e saiu campeão geral da elite. Duas semanas depois, foi vice-campeão da elite no Campeonato Gaúcho de XCM.

Em junho, encarou a 26ª Volta de Santa Catarina de MTB, em Campo Alegre, representando a Seleção Gaúcha. Foram quatro etapas, 225 km e quase 6.000 m de subida, sempre entre os dez primeiros da elite (10º, 8º, 9º e 8º), mesmo com duas quedas de corrente na etapa mais longa. “Perseguindo grandes atletas e tomando muita paulada na cabeça. Muitas vezes é só isso que a gente precisa pra ficar melhor”, resumiu.

Setembro trouxe os testes finais. No dia 13, venceu a ultramaratona do 5º Pedala Glorinha, uma prova de gravel com 110 km e 2.400 m de subida. No dia 28, num revezamento, fez o trecho de ciclismo em 1h36 com potência média de 310 watts e ajudou o trio a ser campeão. Entre uma prova e outra, treinos simulados com a mesma densidade de subidas que o espera na Austrália.

Um desafio para pagar a viagem

Atleta amador não viaja para um Mundial do outro lado do mundo com patrocínio de equipe profissional. A vaga de Renan foi bancada em boa parte pela comunidade em volta dele: lojas de bicicleta, uma imobiliária, uma relojoaria, um restaurante e marcas como Cannondale e Panaracer aparecem na lista de agradecimentos que ele repete a cada resultado.

Em julho, ele foi além e organizou o próprio evento. O Desafio Renan Borges de Ciclismo, no dia 19, teve três trajetos por estradas da região e um almoço no fim, com uma finalidade declarada: arrecadar dinheiro para o Mundial de Gravel. “Devo essa trajetória para todos ao meu redor que pegaram parte do que é seu pra me apoiar e fazer o esporte existir”, escreveu.

Em casa, o apoio tem nome. Renan chama a companheira e a filha de “minhas maiores apoiadoras no esporte”. Foi com a família que ele posou no portão de embarque internacional, segurando a camisa da seleção brasileira da CBC.

Renan Borges com a família no embarque internacional, segurando a camisa da seleção brasileira de ciclismo
A despedida no embarque para a Austrália. Foto: reprodução Instagram @renan.borgess

Em Nannup, ao lado de Avancini

Renan desembarcou na Austrália no início de outubro. “Talvez essa seja a experiência que vai inspirar outros atletas a buscarem o mesmo”, escreveu ao chegar. “Ser difícil não significa ser impossível.”

Na sexta-feira (9), reconheceu ao lado de Avancini os quilômetros finais do percurso, incluindo o Folly Climb, subida em propriedade privada e um dos trechos mais duros da prova. Campeão mundial de maratona de MTB em 2018, Avancini é o único brasileiro inscrito na elite masculina do Mundial.

A categoria de Renan corre no domingo, no mesmo traçado da elite: 144 km com 3.713 m de subida, mais de 80% em estrada de terra. É a primeira vez que o Mundial de Gravel sai da Europa.

O Mundial também já cruzou o caminho de outro nome conhecido do portal: Valtteri Bottas, que pedalou 419 km entre Sepang e Singapura, se classificou para a prova, mas vai estar no grid da Fórmula 1 no mesmo fim de semana.

“Sem grandes cobranças, quero curtir o que eu estou vivendo e sair satisfeito com toda a dedicação e empenho que tive para estar competindo ao lado dos melhores do mundo”, escreveu Renan na véspera.

Como acompanhar a prova de Renan

A elite masculina larga às 10h10 de domingo em Nannup, 23h10 deste sábado (10) em Brasília. A categoria 19 a 34 anos, de Renan, sai 20 minutos depois: 10h30 no horário local, 23h30 em Brasília.

Não há transmissão do Mundial no Brasil. A UCI transmite só as provas de elite, e a live no canal oficial da entidade no YouTube está bloqueada para o país. Para acompanhar Renan, o caminho é o tracking ao vivo da organização, na página de resultados e atualizações do Mundial, que mostra o tempo de cada atleta nos pontos de passagem do percurso. Ele aparece na lista oficial como Renan Borges da Silva.

O que a trajetória de Renan ensina sobre alta performance

A vaga é só metade do caminho. Classificar-se é resultado esportivo; chegar à largada é logística, dinheiro e planejamento. Renan tratou as duas partes como trabalho.

Processo mais tempo é igual a resultado. Em 2022, ele era mais um na Three Race. Em 2026, foi campeão da mesma prova. Não houve atalho entre uma coisa e outra, houve quatro anos de treino.

Prova de preparação tem objetivo próprio. Na Volta de Santa Catarina, o plano não era ganhar, era correr contra gente melhor e medir a distância. Na prova de setembro, era testar as pernas cansadas. Cada largada da temporada tinha uma função dentro do plano maior.

O atleta é uma empresa. Patrocínio local, evento de arrecadação, conteúdo diário e prestação de contas a cada resultado: quem não tem estrutura de equipe profissional constrói a própria.

Ninguém faz esse caminho sozinho. Família, amigos que o levaram para as primeiras provas, apoiadores da cidade, treinador e comunidade. O ambiente em volta do atleta pesa tanto quanto as horas em cima da bicicleta.

Renan não fez esse caminho sozinho. Você também não precisa.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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