Quem toca a campainha da casa de Tony Kanaan em Indianápolis descobre rápido que está tocando na porta errada. O brasileiro recebe as visitas pela garagem, e ele mesmo explica o motivo: “nada mais que dois car guys”. A frase resume o tour de quase uma hora que o jornalista Tiago Kfouri gravou na casa do piloto para o canal Macchina, um vídeo que já passou de 350 mil visualizações.
O que começa como um passeio por carros caros termina em outro lugar. Entre uma BMW branca e uma picape de 702 cavalos, Kanaan explica como o triatlo salvou a cabeça dele dentro de um carro de corrida, e por que ele completou um Ironman mais rápido aos 47 anos do que aos 36.

A garagem veio antes da casa
Kanaan viveu 26 anos na Flórida, quase todos em Miami, antes de se mudar para Indianápolis. Na Flórida, a garagem era aberta, daquelas de cobertura simples. Ao construir a casa nova, ele inverteu a prioridade: a garagem entrou no projeto como cômodo, não como depósito.
“Toda casa que eu ia ver, a primeira coisa que eu entrava era a garagem. Se a garagem não fosse boa, eu falava que não servia”, contou.
O piso foi feito sob medida, com uma mistura granulada que não escorrega. Os armários vieram da Itália dentro de um contêiner, cortesia de uma relação antiga: a marca patrocinava a Minardi e o próprio Kanaan na Fórmula 3, no início dos anos 1990. Ele montou tudo com mais duas pessoas. Num dos armários ficam capacetes e rádios que sobram da equipe no fim de cada temporada. No outro, ferramentas de bicicleta.
A M3 branca é de 1996, mesmo tendo seis meses de uso
O carro mais valioso da garagem não é o mais caro. É uma BMW M3 Competition branca que Kanaan chama de xodó, e a história dela começa 30 anos antes de o carro existir.
Em 1996, recém-chegado aos Estados Unidos para correr a Indy Lights, Kanaan morava em Columbus, Ohio, ganhava mil dólares por mês e pagava 600 de aluguel. Ele entrou numa concessionária BMW e viu uma M3 branca com o preço na janela: 48 mil dólares.
“A gente olhou e falou: será que um dia vamos ganhar essa grana para comprar um carro desse? Entramos no nosso Toyota e fomos embora.”
Ele foi campeão da Indy Lights em 1997. Em 1998, com o primeiro contrato de piloto profissional assinado na CART, comprou a M3. Desde então nunca ficou sem uma. Quando sai geração nova, ele troca.
A da garagem atual é modificada quase inteira. Difusor traseiro em estilo Fórmula 1, asa desenhada pela Vorsteiner, rodas Vossen (marca com a qual ele já assinou uma linha própria), emblemas pretos no lugar dos originais, bancos concha de fibra de carbono e a assinatura dele impressa no painel. O splitter dianteiro é tão baixo que qualquer lombada vira operação de três manobras.
Em seis meses de casa, o carro rodou 200 milhas, cerca de 320 quilômetros. A mulher dele reclama que carro parado não é carro. Kanaan não se abala.
“Só de eu abrir a garagem e saber que ela está aqui, para mim já é. Esse aqui ninguém anda. Meus filhos entram e eu já fico estressado.”
A McLaren papaia é “carro da firma”
Ao lado da M3 fica uma McLaren papaia, na cor exata que a McLaren usa na Fórmula 1 e na IndyCar. Kanaan faz questão de avisar que não comprou: é carro de trabalho, cedido pela equipe, equipado com banco de competição e cinto de seis pontos. Serve para sessão de fotos, ação de patrocinador e jantar oficial.
Esse é o lado menos glamouroso do trabalho: dirigir convidados. Kanaan comanda os chamados hot laps, as voltas rápidas que montadoras oferecem a VIPs em fins de semana de Fórmula 1. São até 15 pessoas por sessão, uma volta cada, com checagem de pressão de pneu e de freio entre elas.
“Eu falo para a pessoa: se você não ficar confortável, dá um tapinha na minha perna que eu diminuo. Nunca tomei um tapinha na perna.”
O caso mais extremo aconteceu em Las Vegas, num circuito que ele não conhecia. Segundo o piloto, o carro de rua marcou 193 milhas por hora na reta, mais de 310 km/h, contra cerca de 223 milhas por hora do Fórmula 1 de Lando Norris no mesmo trecho. Trinta milhas por hora de diferença para um carro de rua com passageiro do lado.
“É uma responsabilidade. Você está num carro de rua colocado num ambiente de carro de corrida. Fura um pneu ali e acabou a brincadeira.”
A picape de 702 cavalos que não cabe na garagem
O carro que Kanaan usa 90% do tempo é uma Ram 1500 TRX Lunar Edition. O motor é um V8 6.2 com compressor, 702 cavalos e 881 Nm de torque, que leva a picape de 0 a 96 km/h em 4,5 segundos. A série é limitada a cerca de mil unidades.
Ele resistiu cinco anos ao argumento de que precisava de uma picape. Quando cedeu, comprou duas, uma para ele e uma para a mulher, sem avisar do preço antes.
A picape resolveu o problema prático da mudança para Indianápolis, onde ele não tem a rede de amigos que tinha em Miami, e criou outros dois. Não cabe na garagem, e só existe um lava a jato na região com espaço para ela.
Kanaan também admite o óbvio: com launch control e 702 cavalos, cada semáforo vira largada. Ele conta que já saiu de casa de lado, atravessando três metros em drift, e ri disso. É o mesmo tipo de obsessão que faz um mecânico americano enfiar um motor de Ferrari dentro de um Porsche 911 só para ver o número que aparece no dinamômetro.

TK11, TK66, TK500
As placas dos carros contam a carreira em três números. Nos Estados Unidos é possível personalizá-las, e Kanaan usou o espaço como currículo.
O 11 foi o número do carro em duas das maiores conquistas dele: o título da IndyCar em 2004 e a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis em 2013, depois de onze tentativas frustradas. O 66 foi o número da despedida, em 2023, quando ele encerrou a carreira na Indy 500 pela Arrow McLaren. O 500 é autoexplicativo.
No pulso, o relógio também é troféu: um Rolex Daytona, prêmio dado a quem vence as 24 Horas de Daytona. Kanaan ganhou o dele em 2015, dividindo o carro da Chip Ganassi com Scott Dixon, Kyle Larson e Jamie McMurray.
Placa preta, aliás, é implicância declarada. Só existe em alguns estados, e ele registra os carros na Flórida em parte por isso. Suporte de placa dianteira, então, é motivo de veto de compra: fura o para-choque.
O triatlo entrou por provocação e virou método
No meio da conversa sobre carros, o assunto vira treino. E é aí que o vídeo fica interessante para quem compete.
Kanaan começou no triatlo aos 27 anos, depois que o preparador físico dele brincou com a barriga que estava aparecendo. Em vez de fazer uma prova curta, ele foi direto para o Ironman. “Os caras falam que o TK ou é zero ou é 100.”
Os números explicam por que ele correu na IndyCar até os 48 anos. Ele completou o Mundial de Ironman no Havaí em 2011, com 12h52min40s. Voltou a Kona em 2022, onze anos mais velho, e fechou em 12h39min53s. Mais rápido, mais velho, mais bem preparado. É o mesmo padrão de atletas master que seguem melhorando marca depois dos 45 anos, quando a curva teórica manda cair.
O que ele descreve como o maior ganho não é físico.
“O nosso esporte às vezes é ingrato, porque a gente depende de muita gente para dar certo. O triatlo depende de você. Você acorda, treina, e se estiver bem você ganha. Se estiver ruim, é porque não treinou o suficiente.”
A frase seguinte é o resumo de tudo: “o maior erro de qualquer atleta é achar que você está melhor do que você está”. Ele explica com a analogia mais direta possível: quem tem três litros de gasolina para andar 20 quilômetros não anda 100, por mais adrenalina que tenha na largada.
As 26 mesas
A tática que ele usou na maratona do Ironman é replicável por qualquer amador. Kanaan dividiu os 42 quilômetros pelo número de postos de hidratação, 26 no total, e transformou cada posto em micrometa. Em cada um, caminhou a mesa inteira, comeu e bebeu o que precisava, e voltou a correr.
O custo foram cerca de 30 segundos por parada, algo em torno de 10 minutos no total. O retorno foi terminar a prova inteira sem quebrar. Vale lembrar que prova longa se perde no estômago antes de se perder na perna, e que a conta de carboidrato por hora é tão planejável quanto o ritmo.
O que isso ensina sobre alta performance
A parte mais aproveitável do vídeo não está em nenhum dos carros. Está na transferência que Kanaan faz do treino solitário para a pista.
Ele conta uma Indy 500 em que a equipe estava em primeiro e segundo, perdeu o momento de parar nos boxes, tomou uma bandeira amarela e caiu para 32º e 33º de 33 carros, ainda na volta 25 de 200. A cabeça de quem não treina resistência desiste ali.
“Aí você fala: é uma prova de três horas, e eu já fiz um negócio de doze.”
É esse o mecanismo. O Ironman não deixa o piloto mais rápido em uma volta, e ele mesmo faz questão de dizer que ninguém precisa ser triatleta para pilotar bem. O que a prova longa entrega é referência de sofrimento. Depois de doze horas seguidas de esforço, três horas viram uma janela administrável, e uma corrida perdida na volta 25 vira uma corrida com 175 voltas pela frente.
O segundo ensinamento é sobre humildade técnica. No primeiro inverno em Indianápolis, Kanaan entrou numa via expressa a 120 km/h com pneus de alta performance, passou por uma ponte com gelo e rodou 360 graus. Piloto profissional, campeão da Indy 500, girando por não respeitar a diferença entre pneu de verão e pneu de inverno.
“Aí você tem que se reeducar. É a arrogância do piloto que acha que faz tudo.”
Vale para quem treina também. Equipamento errado, ritmo errado na largada e leitura otimista da própria forma derrubam mais atleta do que falta de talento.
Kanaan encerrou a carreira de piloto em 2023, mas não saiu do jogo. Desde 2025 é team principal da Arrow McLaren na IndyCar, e comandou em sua primeira temporada no cargo a melhor campanha da história da equipe.
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