No sábado 28 de outubro de 2000, no oval de Fontana, na Califórnia, Gil de Ferran completou uma volta em 30,255 segundos. A média foi de 241,428 milhas por hora, 388,54 km/h. Vinte e seis anos depois, nenhum piloto cravou uma volta oficial mais rápida numa competição em circuito fechado, em nenhuma categoria. Nem na Fórmula 1, nem na Indy, nem na Nascar.
Na quinta-feira (24), a Honda Racing dos Estados Unidos lançou no YouTube “241.428”, uma série documental de quatro episódios sobre aquela volta e sobre o piloto que a fez, morto em dezembro de 2023. Roger Penske, Helio Castroneves, Tony Kanaan, Dario Franchitti, Rick Mears e Zak Brown estão entre os entrevistados. A série se despede em português: “Obrigado, Gil.”
A volta de 30,255 segundos em Fontana
A volta saiu na classificação para o Marlboro 500, a última etapa da temporada 2000 da Cart, a Fórmula Indy como o Brasil conhecia na época. Gil pilotava o carro número 2 da Marlboro Team Penske, um chassi Reynard 2KI com motor Honda V8 turbo de 2,65 litros e pneus Firestone. Dentro da equipe, o carro tinha apelido: “Renske”, mistura de Reynard com Penske.
Nenhum rival chegou perto. Michael Andretti largou em segundo, com 239,097 mph. O brasileiro Christian Fittipaldi foi o terceiro, e Castroneves, companheiro de Gil na Penske, o quarto, com 239,011 mph.
“Quando você é companheiro de equipe, obviamente quer bater o seu companheiro”, conta Castroneves no primeiro episódio. “Lembro que, quando fiz os meus 239 e alguma coisa, pensei: ok, ele é o único que pode chegar perto. E de repente, quando você foi 2 milhas por hora mais rápido que todo mundo, a gente ficou: uau.”
Nem a equipe esperava. “Com o Gil, a gente não acreditava que ia andar tão rápido quanto andou. Virar a volta a 241,4, ficamos pasmos, não dava para acreditar”, diz Tim Cindric, estrategista da Penske.
Em 2009, numa entrevista à revista britânica Motor Sport, Gil descreveu o carro de classificação como “um foguete”. “A Honda apareceu com um motor monstruoso. Passava de 1.000 cavalos”, contou. O mantra dentro do cockpit era um só: “Não tira o pé! Não tira o pé!”
O fim de semana terminou do jeito que o Brasil gosta de lembrar. A corrida começou no domingo e, por causa da chuva, só acabou na segunda-feira, 30 de outubro. Christian Fittipaldi venceu, e Gil de Ferran garantiu o título da Cart de 2000.
De um brasileiro para outro: o recorde era de Gugelmin
A marca que Gil derrubou também era brasileira. Em 1997, na classificação da mesma prova, Maurício Gugelmin tinha feito 240,942 mph, com uma volta em 30,316 segundos. No treino daquele dia, Gugelmin chegou a virar 242,333 mph, mais rápido que Gil três anos depois, mas treino livre não vale para recorde. “O recorde não oficial ainda é meu. É a volta mais rápida de todas, eu acho”, disse o piloto de Joinville em 2009.
Dois detalhes ajudam a dimensionar o número. O primeiro é a régua: a Cart media o oval de Fontana com 2,029 milhas, enquanto a Nascar e a IRL usavam 2 milhas cravadas. Na medida delas, a mesma volta daria 237,98 mph.
O segundo é o tipo de recorde. Fora de competição, carros já andaram mais rápido em pista fechada. A.J. Foyt passou de 257 mph num protótipo da Oldsmobile, numa pista de testes no Texas, em 1987. O Mercedes C 111-IV cravou 403,978 km/h em Nardò, na Itália, em 1979. Nenhum dos dois estava disputando uma prova. A volta de Gil é a mais rápida já registrada oficialmente numa competição.
Por que ninguém bateu a marca em 26 anos
A resposta está no regulamento e no asfalto. Depois de 2000, as categorias passaram a limitar aerodinâmica e motores, o que derrubou potência e velocidade, como a própria Motor Sport registrou. Os monopostos da Indy de hoje passam de 230 mph nos ovais mais rápidos, mas não chegam perto daquela volta.
A pista também deixou de existir como era. Construído por Roger Penske e inaugurado em 1997, o oval de Fontana recebeu a última corrida da Nascar em 26 de fevereiro de 2023. Foi fechado e parcialmente demolido, e boa parte do terreno virou galpão logístico.
“O Gil manteve o pé embaixo, e ouvir ele descrever a volta foi incrível. Fico bem tranquilo em dizer que não acho que esse recorde vá ser batido um dia”, diz Zak Brown, presidente-executivo da McLaren, na série.
O carro do recorde está hoje no Honda Collection Hall, o museu da marca em Motegi, no Japão.

O que a série “241.428” mostra
São quatro episódios curtos, cerca de 31 minutos no total, no canal da Honda Racing US no YouTube: “The Man” (o homem), “The Car” (o carro), “The Heart” (o coração) e “The Reunion” (o reencontro). A direção é do jornalista americano Marshall Pruett, e a produção, da agência CoForce.
Além dos pilotos, falam o dono da equipe, Roger Penske, o estrategista Tim Cindric, o ex-presidente da divisão de competição da Honda nos Estados Unidos David Salters e o engenheiro Mark Crawford, que explica o motor.
A série não esconde o incômodo dos rivais. Franchitti, que também corria com motor Honda na época, admite: “Hoje tenho sentimentos bem diferentes vendo isso, mas na época fiquei furioso. Tinham nos garantido que todos os motores Honda eram iguais”.
O quarto episódio muda de tom. Zak Brown comprou de Roger Penske, segundo a Honda, o Reynard 01I-Honda que Gil pilotou em 2001, o ano do bicampeonato. Não é o carro do recorde, mas o sucessor dele. A divisão de competição da Honda reconstruiu o motor, e Brown pilotou o carro em agosto, na Rolex Monterey Motorsports Reunion, em Laguna Seca, na Califórnia, 25 anos depois da última vez em que ele andou. “Este carro não deveria ficar guardado num depósito. Ele precisa ser lembrado, exibido, pilotado”, diz. Em setembro, foi a vez de Kanaan, dono de uma garagem de respeito em Indianápolis, acelerar o mesmo carro numa exibição no fim de semana da última etapa da Indy.
“241.428 foi uma conquista extraordinária”, afirmou Kelvin Fu, presidente da Honda Racing nos Estados Unidos, no lançamento. “Ouvir o Gil recontar a volta do recorde arrepia os pelos da nuca.”

Quem foi Gil de Ferran
Gil de Ferran nasceu em Paris, em 11 de novembro de 1967, filho do engenheiro francês Luc de Ferran. Mudou-se para o Brasil aos 4 anos e começou no kart aos 5. Foi bicampeão da Cart em 2000 e 2001 pela Penske e venceu as 500 Milhas de Indianápolis em 2003, pela mesma equipe.
Depois de parar de correr na Indy, virou dirigente. Foi diretor esportivo da BAR-Honda na Fórmula 1 entre 2005 e 2007, montou a própria equipe no campeonato americano de protótipos, com a Acura, e venceu a última corrida da carreira em Laguna Seca, em 2009. Entre 2018 e 2021, foi diretor esportivo da McLaren, e voltou à equipe como consultor em 2023.
Morreu em 29 de dezembro de 2023, aos 56 anos, depois de um ataque cardíaco enquanto pilotava num clube de automobilismo privado em Opa-locka, na Flórida, ao lado do filho, Luke. Foi Kanaan, amigo de décadas, quem contou à agência AP que Gil encostou o carro e disse que não se sentia bem.
O que isso ensina sobre alta performance
O nome na folha de tempos é um só, mas Roger Penske faz questão de corrigir a história na série. “Não posso dizer que houve um piloto, um chefe de mecânicos ou um patrocinador que fez tudo. O Gil pilotou o nosso carro. No geral, foi um esforço de equipe”, afirma.
As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. Sem motor, chassi e acerto, o “não tira o pé” de Gil seria só coragem. Sem a coragem de manter o pé embaixo a mais de 380 km/h, o melhor carro do grid seria só um bom carro. O recorde nasce quando a preparação de um grupo inteiro encontra um atleta disposto a ir até o limite que essa preparação permite.
E há o que fica depois. Gil ganhou dois títulos e uma Indy 500, mas é uma volta de 30 segundos, feita há 26 anos, que ainda leva um fabricante a produzir uma série inteira e um presidente de equipe de Fórmula 1 a comprar um carro para não deixá-lo parado num depósito. Troféu junta pó. Marca que ninguém alcança vira referência.
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