A LIV Golf, liga que o dinheiro saudita criou para desafiar o PGA Tour, voltou ao tribunal nesta quarta-feira (7) para a segunda audiência do seu pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos. Em jogo estão os contratos dos jogadores, a principal dívida da liga depois do próprio fundo saudita que a sustentou por quatro anos.
A sobrevivência depende de uma gestora de Londres, a BC Partners, que prometeu US$ 300 milhões para colocar de pé uma nova LIV em 2027. A condição é que um número suficiente de golfistas assine contratos novos, com salários menores e participação societária no lugar das garantias milionárias. O prazo, que vencia em 13 de outubro, foi empurrado para 25 de outubro. Se os jogadores não aderirem, a gestora pode ir embora.
O que está em jogo no tribunal desta semana
A LIV entrou com o pedido em 8 de setembro, em Nova Jersey, pelo chamado Chapter 11. É o equivalente americano à recuperação judicial brasileira: a empresa continua funcionando, fica protegida das cobranças enquanto o processo corre e apresenta um plano para renegociar o que deve. A liga declarou passivo entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão e tinha cerca de US$ 15 milhões em caixa.
A audiência desta quarta, marcada para 11h30 de Nova York (12h30 de Brasília) em Trenton, diante do juiz Michael Kaplan, trata do pedido da LIV para rejeitar ou manter contratos em vigor. Na prática, a liga quer romper os contratos plurianuais dos jogadores para negociar termos novos dentro da LIV 2.0, o projeto de 2027.
Dois casos já andaram. O espanhol Sergio Garcia, de 46 anos, campeão do Masters de 2017, pediu para encerrar o contrato, e o tribunal liberou a rescisão nesta semana. Ele planeja jogar o circuito europeu (DP World Tour) em 2027. O compatriota Jon Rahm ficou no limbo: o contrato dele é o único cuja análise foi adiada, para 5 de novembro, depois do prazo dado aos jogadores para aderir ao novo modelo.
Como o dinheiro saudita reorganizou o golfe
A LIV foi anunciada em 2021 e disputou o primeiro torneio em junho de 2022, com equipes de quatro jogadores, campos reduzidos e premiações de dezenas de milhões de dólares por etapa. A dona era o PIF (Public Investment Fund), o fundo soberano da Arábia Saudita, com 98,48% das ações da empresa, segundo os documentos do processo.
O modelo de atração era o contrato garantido. A LIV pagou bônus de assinatura que o PGA Tour não tinha como cobrir. Os valores nunca foram oficializados e circulam como estimativa de imprensa: cerca de US$ 200 milhões para Phil Mickelson, US$ 100 milhões para Brooks Koepka e algo entre US$ 300 milhões e US$ 350 milhões para Jon Rahm, que assinou em dezembro de 2023, poucos meses depois de vencer o Masters. Segundo a rede Al Jazeera, a liga gastou cerca de US$ 1 bilhão só para contratar os principais nomes.
O PGA Tour suspendeu quem saiu e, em junho de 2023, um acordo-quadro anunciou a união entre PGA Tour, circuito europeu e PIF. A fusão nunca foi concluída. Na lista da Forbes de 2026, Rahm aparece entre os atletas mais bem pagos do mundo, com US$ 107 milhões em um ano.

Por que o dinheiro secou
Desde 2021, o PIF colocou mais de US$ 5 bilhões na LIV. Os números de receita nunca acompanharam. Segundo os documentos do processo, a liga faturou algo perto de US$ 208 milhões em 2025, e só 5% disso veio de direitos de transmissão. No PGA Tour, a TV responde por cerca de dois terços da receita principal. Até 31 de dezembro de 2025, os prejuízos somavam cerca de US$ 3 bilhões na operação americana e US$ 2 bilhões na britânica.
Em 29 de abril de 2026, o fundo avisou que bancaria a liga só até o fim da temporada. “O investimento substancial exigido pela LIV Golf no longo prazo não é mais compatível com a fase atual da estratégia de investimentos do PIF”, disse o comunicado. O governador do fundo, Yasir Al-Rumayyan, deixou a presidência do conselho da liga, que passou para Gene Davis, um dos dois diretores independentes nomeados para conduzir a reestruturação.
Em junho, o PIF ainda virou credor: emprestou US$ 495 milhões, com garantia, para que a temporada seguisse. Não bastou: etapas foram canceladas, mais de US$ 60 milhões em premiação deixaram de ser disputados e 289 funcionários foram demitidos, cerca de 90% da equipe. Os mais de US$ 500 milhões em dívidas citados no pedido são, em sua maior parte, esse empréstimo do próprio fundo saudita.
O CEO Scott O’Neil resumiu a mudança em declaração publicada nesta semana pela agência Field Level Media: “Estamos saindo de um plano de negócios ao estilo saudita para um plano de negócios de negócio”.
O que acontece com os contratos dos jogadores
Na recuperação americana, a empresa pode pedir ao juiz para rejeitar contratos em andamento. Quem estava do outro lado vira credor sem garantia e entra na fila com os fornecedores, atrás de quem emprestou com garantia. É o caminho que a LIV pediu para os acordos de jogadores como Bryson DeChambeau, Dustin Johnson e Tyrrell Hatton.
Os valores que aparecem na lista de credores são só as parcelas vencidas e não pagas até 8 de setembro, não o que resta dos contratos. Mesmo assim, 14 dos 30 maiores credores eram jogadores, com pelo menos US$ 45 milhões a receber no total. Os maiores:
| Jogador | Valor vencido e não pago |
|---|---|
| Jon Rahm | US$ 7,47 milhões |
| Bryson DeChambeau | US$ 5,76 milhões |
| Dustin Johnson | US$ 5,48 milhões |
| Cameron Smith | US$ 4,85 milhões |
| Adrian Meronk | US$ 4,4 milhões |
| Tyrrell Hatton | US$ 3,4 milhões |
| Bubba Watson | US$ 3,3 milhões |
Fonte: lista de credores do processo, segundo ESPN e NBC News.
No caso de Rahm, o contrato concentra os pagamentos no fim, e a imprensa americana estima que ainda faltariam até US$ 150 milhões a receber, valor que nunca foi confirmado. Em maio, ele já tinha avaliado a situação: “Tenho vários anos de contrato pela frente, então não vejo muitas saídas”. E completou: “Para o plano de negócios mudar, seja o que for, vai ser preciso ter concessões da parte deles”.

O que os credores querem
O maior credor é o próprio PIF, que agora financia a recuperação. O fundo aprovou um empréstimo de US$ 49,6 milhões no formato DIP, a linha de crédito concedida a uma empresa já em recuperação, que recebe prioridade no pagamento. O juiz liberou de início o acesso a US$ 14 milhões. Pelo plano, o fundo deixa de ser dono da liga.
Os demais credores sem garantia são representados por um comitê de sete membros, com empresas de tecnologia esportiva, de mídia, uma liga de golfe britânica concorrente e um único jogador, Michael La Sasso. A LIV deve pelo menos US$ 12 milhões a fornecedores e US$ 18,5 milhões em impostos em dez países e nos Estados Unidos. O estado da Louisiana, cuja etapa de 2026 não aconteceu, cobra US$ 1,22 milhão.
Para eles, a pergunta é se a LIV 2.0 paga mais do que uma liquidação. O advogado John J. Sparacino, ouvido pelo Front Office Sports, foi direto: “Acho que existe um risco significativo de ela não sair do Chapter 11”. Se o plano fracassar, o caso pode virar Chapter 7, a liquidação pura, em que os bens são vendidos e a empresa deixa de existir.
A nova LIV que a BC Partners quer montar
O acordo de apoio à reestruturação foi protocolado na segunda-feira (5). Pelos termos detalhados pela plataforma de dados Octus, os US$ 300 milhões misturam empréstimo (US$ 127,5 milhões) e ações preferenciais. O compromisso inicial anunciado pela gestora é de US$ 4 milhões. A aprovação do acordo deve ser discutida na audiência de 14 de outubro.
A liga reorganizada seria 52,5% dos jogadores, 45% da BC Partners e dos coinvestidores e 2,5% da direção. Os golfistas também teriam, em média, 30% das suas equipes, bônus de assinatura em contratos novos e de volta parte dos direitos de imagem. O calendário de 2027 teria 10 torneios, metade fora dos Estados Unidos. “Dá para ver com facilidade um caminho, em pouco tempo, para uma avaliação acima de US$ 100 milhões por equipe”, disse Ted Goldthorpe, chefe da área de crédito da BC Partners.
A regra de adesão também mudou. A versão original exigia metade dos jogadores com valores a receber, somando dois terços do total devido. O acordo novo deixa a decisão a critério da BC Partners: o investidor decide se o elenco que assinou vale os US$ 300 milhões.
Dinheiro de dono contra receita própria
A LIV é um caso raro de liga que nunca precisou se pagar: enquanto o dono cobria o déficit, salários e premiação cresciam sem relação com o que a liga arrecadava. O patrocínio subiu de US$ 16 milhões em 2023 para US$ 102 milhões em 2025, e as cidades-sede pagaram US$ 34 milhões no ano passado. É crescimento real, mas pequeno perto do custo: só a empresa britânica que cuida da operação internacional gastou US$ 500 milhões para organizar sete torneios em 2024.
A Laver Cup, criada por Federer, seguiu o caminho oposto: nasceu com sócios que dividem o risco e passou dos US$ 40 milhões de receita em 2025. Mesmo times de elite com títulos recentes dependem de quem paga a conta, como a Visma-Lease a Bike, que chegou a outubro sem patrocinador para 2027. Quando uma única fonte banca quase tudo, a decisão de um conselho de investimentos pode encerrar o negócio.
O que a crise da LIV ensina sobre alta performance
A LIV vendeu aos jogadores segurança: dinheiro garantido e menos torneios. O processo mostra o limite dessa promessa: um contrato garantido vale o que vale a saúde de quem paga. Quando o pagador sai, o atleta vira credor, e credor sem garantia recebe por último.
As respostas dos jogadores mostram três caminhos. Brooks Koepka se antecipou ao anúncio do PIF: em janeiro de 2026, voltou ao PGA Tour por um programa de retorno criado para campeões de major, pagou US$ 5 milhões em doação beneficente e abriu mão de ganhos futuros para competir de novo onde estavam os melhores. Rahm, DeChambeau e Cameron Smith recusaram a mesma oferta no início do ano e hoje dependem do que for decidido no processo. Garcia, aos 46 anos, saiu da liga e planeja recomeçar no circuito europeu.
Um dos princípios que a Atleta Pro Academy ensina é que o atleta é uma empresa. Ele precisa saber de onde vem cada fonte de renda, quem está do outro lado do contrato e o que acontece com a carreira se essa fonte acabar. O golfista que trocou ranking, calendário e circuito por um cheque descobriu, em 2026, que o cheque dependia de outra pessoa.
Carreira de atleta também se planeja como empresa
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