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Six Kings Slam adiado: a guerra trava o dinheiro saudita no tênis

Carlos Alcaraz bate forehand no ATP 500 de Tóquio em outubro de 2026

O torneio que paga o maior cheque do tênis não vai acontecer nesta semana. O Six Kings Slam, exibição de seis jogadores criada pela Riyadh Season, estava marcado para 21 a 24 de outubro em Riad. Na quarta-feira (14), os organizadores empurraram a terceira edição para 27 a 30 de dezembro, alegando “desafios organizacionais e logísticos”.

O comunicado não fala em guerra, mas o calendário fala por ele. Seis dias antes, o Aeroporto Internacional King Khalid, principal porta de entrada da capital saudita, começou a ser atingido por mísseis lançados pelos houthis do Iêmen. O adiamento é o capítulo mais recente de um ano em que a Arábia Saudita viu escapar, um a um, os eventos que tinha comprado para entrar no centro do tênis mundial.

O que foi adiado e por quê

A decisão foi anunciada por Turki Al-Sheikh, presidente da Autoridade Geral de Entretenimento da Arábia Saudita, órgão que comanda a Riyadh Season. Na rede X, a organização escreveu que o torneio “foi adiado por razões logísticas e acontecerá a partir de 27 de dezembro”.

A imprensa internacional ligou a mudança à escalada no Oriente Médio. Entre 8 e 11 de outubro, o aeroporto de Riad foi alvo de ataques seguidos. O de sábado, dia 10, foi o mais grave: ao menos 12 mortos e mais de 300 feridos, segundo as autoridades sauditas citadas pela Al Jazeera.

O tênis não foi o único afetado. Três jogos da 9ª rodada do Campeonato Saudita de futebol foram remarcados. E o Grande Prêmio da Arábia Saudita de Fórmula 1, previsto para abril em Jidá, já tinha sido cancelado em março, junto com o do Bahrein, por causa da situação na região.

US$ 13,5 milhões por quatro dias de exibição

O Six Kings Slam não vale ponto no ranking. Vale dinheiro, e muito. Cada um dos seis convidados recebe US$ 1,5 milhão só por entrar em quadra. O campeão leva mais US$ 4,5 milhões, o que fecha um cheque de US$ 6 milhões. A premiação total soma US$ 13,5 milhões, e a transmissão é da Netflix desde a edição de 2025.

Para dimensionar: segundo o Front Office Sports, só a garantia de participação já supera o prêmio do campeão de qualquer Masters 1000. E o cheque do vencedor é maior que o de qualquer Grand Slam, mesmo depois do recorde do US Open de 2026, que pagou US$ 5,5 milhões a cada campeão de simples.

TorneioFormatoPrêmio do campeão de simples
Six Kings Slam (2024 e 2025)Exibição, sem pontos no rankingUS$ 6 milhões
US Open 2026Grand SlamUS$ 5,5 milhões
WTA Finals 2025 (Riad)Finais da temporada femininaUS$ 5,235 milhões (Elena Rybakina)
ATP Finals 2025 (Turim)Finais da temporada masculinaUS$ 5,071 milhões (Jannik Sinner, invicto)

A diferença está no esforço. Alexander Zverev precisou de sete vitórias em duas semanas para levar os US$ 5,5 milhões do US Open, em setembro. Em Riad, no formato das duas primeiras edições, com dois convidados entrando direto na semifinal, o campeão precisa de duas ou três vitórias em quatro dias. Todos os valores são brutos, antes de impostos e da parte que vai para a equipe de cada jogador.

Sinner ganhou US$ 12 milhões em Riad sem somar um ponto

O dono do torneio até aqui é Jannik Sinner. O italiano venceu as duas primeiras edições, ambas em finais contra Carlos Alcaraz: 6/7, 6/3 e 6/3 em 2024, e 6/2 e 6/4 em 2025. Foram US$ 12 milhões em duas edições de exibição. O cheque de 2024 virou, na época, o maior prêmio individual da história do tênis, acima dos US$ 4,74 milhões que Novak Djokovic recebeu no ATP Finals de 2022.

Em 2026, Sinner está fora: o italiano encerrou a temporada para tratar o joelho. No dia 6 de outubro, a Riyadh Season confirmou o americano Learner Tien, de 20 anos, no lugar dele. A chave anunciada tem Alcaraz, Djokovic, Zverev, Taylor Fritz, Alex de Minaur e Tien.

Novak Djokovic se estica para alcançar a bola no Masters 1000 de Xangai em 2026
Novak Djokovic, um dos seis convidados do Six Kings Slam, em Xangai. Foto: Divulgação/ATP Tour

O mapa do dinheiro saudita no tênis

O Six Kings Slam é a vitrine, mas o projeto saudita no tênis é bem maior. Em fevereiro de 2024, o PIF (Public Investment Fund), fundo soberano do país, fechou uma parceria plurianual com a ATP e passou a dar nome ao ranking: desde então, a lista oficial se chama PIF ATP Rankings. O mesmo fundo dá nome ao ranking feminino e à corrida para o WTA Finals.

Em outubro de 2025, a ATP foi além e anunciou, com a SURJ Sports Investment, braço esportivo do PIF, um décimo Masters 1000, a ser disputado na Arábia Saudita a partir de 2028. Seria a primeira expansão da categoria em 35 anos. “A Arábia Saudita demonstrou um compromisso genuíno com o tênis”, disse na ocasião o presidente da ATP, Andrea Gaudenzi. O valor do acordo não foi divulgado.

De lá para cá, quase tudo andou para trás:

Ativo saudita no tênisO que eraSituação em outubro de 2026
Six Kings Slam (Riad)Exibição da Riyadh Season desde 2024Adiado de 21 a 24/10 para 27 a 30/12
WTA Finals (Riad)Contrato de três anos, de 2024 a 2026Edição de 2026 transferida para Indian Wells (EUA), de 8 a 15/11
Next Gen ATP Finals (Jidá)Sede saudita desde 2023, com plano de cinco anosDeixou o país depois de três edições; a última foi em dezembro de 2025
Nome dos rankings da ATP e da WTAPatrocínio do PIF desde 2024Segue em vigor
Masters 1000 sauditaAnunciado em outubro de 2025, a partir de 2028SURJ diz manter o compromisso; sede e data não definidas

A saída do WTA Finals foi a mais simbólica. Em 1º de julho, a WTA anunciou que pediu para encerrar antes do prazo o acordo com a Federação Saudita de Tênis, que aceitou. A entidade não explicou o motivo, e parte da imprensa ligou a mudança ao conflito na região. A edição de 2025 em Riad tinha distribuído US$ 15,5 milhões em prêmios, recorde do torneio, segundo o jornal The National, de Abu Dhabi.

Taylor Fritz acerta forehand no Masters 1000 de Xangai em 2026
Taylor Fritz, outro convidado de Riad, em Xangai. Foto: Divulgação/ATP Tour

Dezembro aperta o calendário

A nova data cria outro problema, este dentro da quadra. A temporada de 2027 abre em 1º de janeiro com a United Cup, na Austrália, e o Australian Open começa em 17 de janeiro. Quem jogar a final em Riad no dia 30 de dezembro terá cerca de 48 horas para chegar ao outro lado do mundo, nas contas do site Tennis Majors.

Por isso, a Riyadh Season ainda não confirmou se os seis convidados mantêm presença em dezembro, e nenhum deles comentou publicamente o adiamento até o fim da semana passada. A garantia de US$ 1,5 milhão pesa a favor. A pré-temporada, que é onde o jogador constrói o ano seguinte, pesa contra.

Quem já tinha ingresso foi orientado a procurar o Ehtemam Center, a central de atendimento da Riyadh Season. A programação diária de dezembro ainda não foi publicada.

O recuo do PIF e o precedente do golfe

O adiamento chega num momento em que o fundo saudita já vinha cortando gastos no esporte. No fim de abril, o PIF anunciou que deixaria de financiar a LIV Golf depois da temporada de 2026, liga que ele criou e da qual detinha quase todas as ações. Hoje a LIV está em recuperação judicial nos Estados Unidos. Em abril, o fundo também vendeu 70% do Al Hilal, um dos maiores clubes do futebol saudita.

No tênis, a mensagem oficial é de continuidade. “A SURJ segue totalmente comprometida com o desenvolvimento de longo prazo do tênis de primeira linha na Arábia Saudita”, disse o CEO Danny Townsend ao The National, na mesma semana em que o PIF anunciou a saída do golfe. Mas o histórico recente pesa: dois eventos oficiais deixaram o país em menos de um ano, e o principal produto próprio acaba de ser adiado.

O circuito feminino já se protegeu. Desde janeiro de 2026, a WTA se chama WTA Tour Driven by Mercedes-Benz, num acordo de dez anos que a imprensa estima em até US$ 500 milhões, o maior patrocínio da história do tênis feminino. É dinheiro de marca, com contrato longo, e não de evento que depende de voo, visto e espaço aéreo aberto.

O que isso ensina sobre alta performance

Para os jogadores, a lição é de gestão de carreira. O Six Kings Slam paga mais que um Grand Slam, mas não soma ponto, não entra no currículo e pode mudar de data por razões que ninguém na quadra controla. Dinheiro de exibição é bônus, não é base.

Os atletas que atravessam crises sem perder o rumo tratam a carreira como empresa: renda de várias fontes, patrocínio com prazo longo e calendário montado em torno do que constrói o ano, que é ranking, saúde e pré-temporada. Djokovic ainda ganha títulos aos 39 anos e fatura cerca de US$ 25 milhões por ano só com marcas porque protegeu o corpo e o calendário por duas décadas. O cheque saudita veio depois, nunca antes.

Vale também para quem está subindo, no profissional ou no amador: a oportunidade que paga muito e rápido precisa caber dentro do plano, e não o contrário. Quem planeja só o pico fica refém do que não controla.

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Diogo Moraes

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